Poema de Antônio dos Santos Camargo: Desgraçados

A ciranda da vida é engraçada, Desgraçados acolhem desgraçados

E a graça da desgraça pode ser compartilhada.

E a graça é o sofrimento, é padecer do mesmo mal, Comer sempre o mesmo prato e achar tudo normal. A graça é a humildade, a graça é a fé em Deus,

A graça é chorar a falta de alguém que faleceu. A graça é ser igual e tentar se mostrar diferente, É não negar abrigo, seja rico ou indigente.

Desgraçados não têm carro, não têm bens, nem capital, Nas pocilgas se procriam por instinto animal.

Desgraçados não passeiam e têm medo de avião

Mas conhecem o mundo inteiro pela nave da imaginação. Desgraçados não têm manta, só o calor de uma fogueira, Têm o ombro dos colegas e a cachaça companheira.

Vivem uma vida de casos, de aventuras e fantasias A mentira é o sustento e cada um tem sua mania. Já fugiram de polícia, já enfrentaram assombração, De apostas e jogatinas, cada um tem seu milhão.

Já viram encanto de boto, já ouviram canto de sereia Mas, na calada da noite, com o pretexto da fadiga, Calados se recolhem com medo da lua cheia.

Aos amigos desgraçados eu, também, peço guarida Pois o mundo, aqui fora, não respeita a vida alheia.

*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.