Antônio dos Santos Camargo: Soneto do Epiléptico

“Com certeza se esqueceu de tomar o remédio”, simplifica alguém de fora.
Seria tão bom se tudo se resolvesse com a simples correção de um esquecimento…
Mas a dor de quem acorda de um ataque epiléptico vai além do esquecimento, vai além da dor física, vai além do constrangimento. A dor maior é reconhecer a carga emocional que extrapolou o limite da medicação. O limite da medicação é a limitação do seu passo. (Trecho do livro
“Segmentos de Vida, de minha autoria).

Vou dedicar uma seção de poemas aos epilépticos, por solidariedade e familiaridade. São poemas que fazem parte do meu primeiro livro, Segmentos de Vida, cujo tema é Epilepsia. Não tenho competência bastante para falar sobre epilepsia, mas posso falar, com propriedade, sobre os dilemas e as dores que afligem um epiléptico. Posso falar de uma forma geral pois há muitas classes de epilepsia e, consequentemente, muitos tipos de pacientes. Posso falar do constrangimento que acomete um epiléptico ao perceber que sofreu um surto diante de pessoas. Posso falar sobre os sentimentos que permeiam a vida de um epiléptico, mas prefiro dizê-los em poemas. Afinal, o poeta traduz seus sentimentos em poemas; os versos são expressões de suas dores. Assim ele compõe a poesia da sua vida.

Neste soneto, o poeta expõe seus sentimentos ao “acordar” de um surto epiléptico.

SONETO DO EPILÉPTICO

De um sonho estranho, vazio, desperto.
Sinto no rosto a mão leve que me golpeia.
Vozes distantes chamam meu nome e, perto,
Vejo os vultos imóveis que me rodeiam.

Procuro uma luz nos semblantes de espanto,
Mas o súbito silêncio é a resposta mais clara:
O posseiro de vidas que emudece meu canto
Outra vez entre meus sonhos se intercalara.

Tento falar, mas a voz se abstém o comando…
Perturbado e recolhido num mundo céptico,
Esboço um sorriso que servir-me-ia de manto

Não fosse a dor latejante e o quadro patético.
E a depressão incontida, retratada no pranto,
Encerra o despertar medonho do ataque epiléptico.

*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.