Coluna de Manoel Lopes: Entre o Pedal e o Algoritmo

Há alguns anos, quando um ciclista queria melhorar seu desempenho, a receita era simples: pedalar mais, observar os mais experientes, ouvir os conselhos dos amigos e acumular quilômetros nas pernas. Hoje, além de tudo isso, temos aplicativos que analisam potência, frequência cardíaca, cadência, recuperação muscular, qualidade do sono e até sugerem o melhor horário para treinar.

A inteligência artificial chegou ao ciclismo sem fazer barulho. Ela não veste capacete, não ocupa espaço no pelotão e não aparece nas fotos de chegada. Mas está cada vez mais presente nas decisões que tomamos sobre treinamento, nutrição, planejamento de rotas e manutenção da bicicleta.
O cruzamento entre bicicleta e inteligência artificial é um retrato interessante do nosso tempo. De um lado, temos uma das invenções mais simples e eficientes da história humana: duas rodas, um quadro e a força das pernas. Do outro, sistemas capazes de processar milhões de dados em segundos para prever comportamentos, identificar padrões e oferecer recomendações personalizadas.

Hoje, um ciclista amador pode receber análises que, há poucas décadas, estavam disponíveis apenas para equipes profissionais. A IA consegue identificar tendências de fadiga, sugerir períodos de recuperação e até prever riscos de sobrecarga física. Para quem pedala por lazer, isso pode significar mais segurança e melhor aproveitamento do tempo. Para atletas, representa uma vantagem competitiva importante.

Mas existe uma questão interessante nesse avanço. O ciclismo nunca foi apenas uma atividade física. Pedalar também é descobrir caminhos, sentir os cheiros da natureza, conversar com amigos e aprender a ouvir os sinais do próprio corpo. Nem tudo cabe em gráficos, relatórios e indicadores.
Imagine um futuro próximo em que um ciclista acorde às cinco da manhã e pergunte à inteligência artificial como se sente. A resposta viria acompanhada de estatísticas detalhadas, probabilidades de desempenho e recomendações precisas. Ainda assim, restaria uma pergunta que nenhum algoritmo consegue responder completamente: qual é a sensação de ver o sol nascer enquanto se pedala numa estrada vazia?

A tecnologia tem muito a contribuir para o esporte. O desafio será utilizá-la como ferramenta, e não como substituta da experiência humana. A bicicleta continua sendo uma máquina extraordinária justamente porque conecta pessoas, lugares e histórias de forma direta. A inteligência artificial pode ajudar a planejar a jornada, mas quem realmente pedala é o ser humano.

Talvez esse seja o encontro mais interessante entre o ciclismo e a IA: um nos ensina a interpretar dados; o outro nos lembra que a vida acontece fora deles.
E quando terminarmos um pedal de 100 quilômetros, cercados pelos amigos na padaria do Sr. Wilson, em Canguera, ponto de encontro de ciclistas, saboreando a famosa coxinha, ainda haverá espaço para a pergunta mais importante de todas, aquela que nenhum algoritmo consegue medir com precisão:
“Foi rápido ou foi daqueles pedais que a gente queria que nunca acabassem?”

*Manoel Lopes é autor de Na Trilha dos Deuses, livro que narra a jornada de um ciclista em busca da sustentabilidade, promovendo a conscientização ambiental e práticas mais responsáveis no cotidiano. Como escritor e colunista, se destaca em Cotia, influenciando positivamente a comunidade e promovendo uma cidade mais sustentável e conectada com questões ambientais. Escreve no Jornal Cotia Agora.