Antônio dos Santos Camargo: Linha da Vida (Quando ele viu a foto da mão espalmada)

A epilepsia, na maioria dos casos, é um mal controlável com medicamento, mudança de hábitos, disciplina e outras coisas mais. Mas, a exemplo de todos os males, quando a pessoa recebe o diagnóstico do problema fica bastante abalada. Ela sabe que aquilo causará muitas mudanças em sua vida. Mudança de comportamento, restrição a bebidas alcoólicas e muita dedicação são algumas exigências para controlar o problema. Em muitos casos, a pessoa tem que rever seus sonhos ou reprojetar sua vida para uma nova realidade. E quando ela vê aqueles resultados de exames, então? Exames estranhos, cheios de traços, riscos, fica mais confusa ainda, pois não consegue entender nada daquilo. Realmente, para um leigo, esses exames neurológicos são de difícil interpretação. No entanto, o poeta consegue ver o problema e imaginar as consequências daquilo em sua vida, simplesmente observando a palma de sua mão.

LINHA DA VIDA
Seu semblante mudou, de súbito,
Quando viu no álbum de fotografia
A imagem de sua mão espalmada.
O que era um simples momento lúdico,
Ganhou outra forma de analogia
E mudou seu humor, calou sua risada.

Tudo porque viu, na palma daquela mão,
Um pequeno detalhe, quase escondido:
A linha da vida era uma linha tracejada.
Aquilo não deveria causar-lhe confusão
Já que se achava um incrédulo assumido,
Uma mera imperfeição que representa nada.

Mas, viu-se, de repente, buscando explicação
E aquilo já ganhava contornos de inquietude
Pois não via resposta na quiromancia ou na ciência.
E quando olhava para a palma de sua mão,
Sua mão se encolhia, por instinto e amiúde,
Fazendo que ele chegasse ao limite da paciência.

Num gesto de desespero prenunciado,
Ele fechou seus olhos e escondeu seu rosto,
Buscando refúgio no silêncio da escuridão.
E assim ficou por um longo tempo, entediado,
Até que, de repente, colocou-se recomposto,
Não poderia curvar-se ao traço de sua mão.

E viu, ao abrir os olhos, que não estava sozinho.
Havia um ombro e amigos ao seu lado,
Uma família que contava com seu sorriso,
Havia muitos sonhos ao longo de seu caminho.
E não estaria ali se não houvesse um passado
E que não há futuro com um presente indeciso.

Muniu-se, então, de coragem e abriu a sua mão
E viu que havia outras marcas, além daquele traço
E que todos eram belos e ornavam aquela palma.
E, também, outro detalhe a que não dera atenção:
Nela havia calos que orgulham qualquer braço
E viu, na palma da sua mão, o retrato da sua alma.

Notou que aquela linha, apesar de tracejada,
Passava pelos pontos onde moravam seus sonhos.
E uma outra coisa a que não tomara noção:
Aquela linha intrigante, apesar de entrecortada,
Era um traço forte e tampouco era medonho
Pois chegava decidido à outra extremidade da mão.

Ele sorriu, enfim, para aquela mão espalmada
E disse a si mesmo que não mais a esconderia.
Mesmo com as incógnitas daquela linha fingida,
Não mais se renderia a uma história contada.
E se alguém perguntasse aquilo o que seria,
Diria, simplesmente, é o esboço da minha vida.

*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.