Conto de Antônio dos Santos Camargo: Juca Mentiroso

No bar, onde um grupo de amigos se encontravam todos os sábados para beber e conversar, Juca era chamado de mitomaníaco pelo Bigode, o membro que tinha um pouco de cultura. De fato, chegava a ser insuportável a necessidade de Juca contar histórias mentirosas para se sobressair aos demais. Se alguém falasse em um lugar turístico, ele dizia que tinha estado lá e inventava uma série de características do lugar. Se falassem sobre qualquer doença, ele já havia contraído e mostrava alguma evidência de sequela. Pessoas famosas ele conhecia, pessoalmente, quase todas. Sobre política, religião, profissão, para tudo ele tinha alguma coisa a dizer, quase tudo era fruto da sua imaginação. Se falassem em pescaria, então, ele conhecia todos os rios do país e já havia pescado todos os tipos de peixe.

Certa vez, cansados de tanta mentira, resolveram pregar uma peça no Juca. Foi o Bigode quem teve a ideia. Lembrando que o Juca, em um de seus repentes de mentiras, disse conhecer o astro da música sertaneja João Mascate, chegou na roda de cerveja e comentou: “Adivinhem com quem eu conversei hoje?” Ante os olhares interrogativos dos amigos, concluiu: “Com o amigo do Juca, João Mascate. Ele se interessou por um sítio,
aqui na cidade, e falou comigo na imobiliária.” Todos perceberam o incômodo que isso causou ao Juca. “Amigo não, conhecido.” Corrigiu Juca. “Tudo bem, conhecido, mas eu preciso da sua ajuda para intermediar esse negócio, ele quer comprar o sítio lá perto do rio. É um ótimo negócio e você pode ganhar uma graninha de comissão. Ele virá aqui no próximo sábado. O que você diz?” Juca repudiou: “Tô fora, não quero nem olhar para esse cara.” O Esquerdinha aproveitou para dar uma cutucada: “Pô, Juca, não custa nada.
Afinal, você conhece ou não conhece esse tal de João Mascate?” Juca respondeu: “Claro que conheço, mas não quero saber desse cara.” O Medonho também quis tirar uma casquinha: “Por que não, Juca?” Juca tentou se justificar: “Nós tivemos uma desavença no passado, só isso. E eu não estarei aqui sábado próximo. Ponto final.” Juca saiu do bar e foi para sua casa e todos ficaram rindo dele. No sábado seguinte e nos outros dois, Juca não apareceu no bar e todos sentiram-se aliviados sem as suas conversas inconvenientes.

Acontece que o Bigode, para tentar incrementar sua história, tinha colocado uma placa à frente do referido sítio, com a frase: “Futura propriedade de João Mascate”. Na placa havia o nome da imobiliária e o telefone para contato. Um curioso, achando que aquilo poderia trazer benefício para ele, já que morava nas proximidades, ao passar em frente resolveu fotografar a placa e a postou na internet. A foto despertou o interesse das pessoas e começou a circular entre os internautas. Inevitavelmente, a foto chegou ao conhecimento do João Mascate. Ele ligou para imobiliária para saber do que se tratava, afinal sua imagem estava sendo usada sem sua permissão. Pego de surpresa, Bigode teve que contar que se tratava de uma brincadeira para desmoralizar um amigo chamado Juca Mentiroso. A surpresa foi maior quando João Mascate quis saber mais detalhes sobre esse Juca Mentiroso e, ao tomar conhecimento de algumas informações pessoais, disse que iria à cidade no sábado seguinte. Pediu, apenas, para não comentar com o Juca pois ele queria participar da brincadeira.

Esse sábado mencionado foi três semanas após a armação para desmascarar o Juca. Este se encontrava, novamente, incorporado ao grupo e ninguém mais comentava sobre o episódio. De repente, uma picape cabine dupla é estacionada na porta do bar e dela descem João Mascate e dois guarda-costas. João usava uma calça justa, com cinta grossa, botas e chapéu. Seus guarda-costas usavam trajes parecidos. Ao ver João Mascate descer da caminhonete, Juca sentiu uma vontade de sair correndo dali, mas pensou que seria uma demonstração de covardia e resolveu encarar a situação. Ninguém imaginava, mas de todas as mentiras do Juca, a história escolhida para aquela
brincadeira não era mentira, ele realmente conhecia o João Mascate. “Então é aqui que você se esconde, seu safado?” Foi a exclamação do João, assim que entrou. “Eu não me escondo, eu moro aqui.” Respondeu Juca, para surpresa de todos. “Eu o procurei por todos os cantos, mas agora você vai pagar pelo que fez.” Bigode sentiu-se mal com aquela atitude e colocou-se à frente dele. “Espere aí, o que foi que ele fez?” Os outros amigos também se colocaram à frente do Juca. “Ele roubou um relógio meu.” Disse João de forma meio indecisa, já que não contava com a proteção dos amigos do Juca. “Roubo de relógio é caso de polícia. Você fez queixa?” Bigode sentia-se responsável por aquela situação.
“Eu não confio na polícia, resolvo minhas desavenças com minhas próprias mãos.” Retrucou João. “Com suas próprias mãos ou com as mãos de sus gorilas? – desafiou Bigode. “O que você diz, Juca?” – completou. “Eu não roubei nada, o relógio foi um presente da mulher dele.” Essa resposta foi o combustível para começar a confusão. “Filho de uma puta!” – gritou João – e começou a pancadaria. Juca recebeu um soco na cara e foi a nocaute. Um dos seguranças recebeu uma cadeirada na cabeça, caiu, foi pisoteado e chutado. João levou uma rasteira, caiu de costas e quebrou uma costela. A pancadaria só não tomou um rumo trágico porque o Bigode pegou o revólver do seu Jair, dono do bar, subiu no balcão e disparou um tiro para cima. Todos pararam. “Preste atenção, João Mascate: Tudo o que está acontecendo aqui está sendo filmado. – apontou para uma câmera na parede – Logo essas imagens podem chegar à internet e todos vão tomar conhecimento do aconteceu aqui. Além de prejudicar sua carreira, você vai ser exposto como corno. Já pensou nisso? Resolva sua situação com sua mulher ou com a polícia.” Disse Bigode, aos gritos. “Mas ele é um mentiroso” – disse João, gemendo de dor.
“É mentiroso, mas é nosso amigo. Aqui você vai arrumar briga com toda a cidade.” Juca, restabelecido do golpe na cara, recebeu aquela afirmação na frente dos colegas como uma punhalada em seu ego. Nessa altura, João só contava com um segurança, o outro estava imobilizado, e ele não tinha condições de reagir. “Vamos combinar o seguinte:
Vocês se retiram daqui e não enchem mais o saco do Juca e nós nos comprometemos a não colocar essas imagens na internet. Caso contrário, o país inteiro ficará sabendo do que houve aqui.” Disse Bigode. João Mascate nada disse, apenas se retirou com seus seguranças.

No sábado seguinte, Juca mostrou aos amigos uma foto dele abraçado à mulher do João Mascate, como prova de que eles tinham sido amantes, e o relógio que havia recebido de presente. Disse que João não havia feito queixa à polícia para não se expor e porque sabia do presente. Agradeceu aos amigos pela solidariedade e pediu desculpa pelas mentiras. Bigode, então disse: “Espero que você tenha aprendido a lição. As
mentiras que você contava só serviam para afastá-lo de seus amigos. Você só ganhou a solidariedade dos amigos por causa de uma verdade. A amizade está ancorada na verdade. Lembre-se sempre disso.”

*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.