Descendo a Graciosa – por Manoel Lopes
O convite veio de professores da Universidade Federal do Paraná: descer a Serra da Graciosa partindo da Universidade, em Curitiba. Quem sou eu para dizer não? Não se recusa um pedido assim. Fui de carro até Curitiba carregando uma bike raiz, que faria o resto do caminho comigo: oitenta e poucos quilômetros, e nada como pedalar com as forças do próprio corpo.
Aos poucos fui descobrindo que o começo da serra começaria a sessenta quilômetros de onde partimos. E jamais imaginei que, para chegar ao começo da descida, existissem inúmeras subidas. Subidas íngremes. Muitas. A estrada não mostrava a conta antes da hora; cobrava no corpo, quilômetro por quilômetro, pedalada por pedalada.
E é aí que mora a reflexão de quem pedala. Quando se pensa em pedalar, a memória guarda as paisagens, o riso dos colegas e o vento na cara. Mas a verdade da subida é outra: a velocidade é mínima, não há vento nenhum e nem a natureza interessa. Ali não existe paisagem, existe o corpo em silêncio, a raiva, a certeza de que não vai dar, o abandono espreitando como uma sombra cúmplice. E lá estava eu, pedalando, com uma pergunta a marcar o compasso: “O que é que eu estou fazendo aqui?”
Nunca imaginei que, para descer uma serra, fosse preciso subir o dobro do que se desceria. A altimetria subia feito termômetro no deserto pelas manhãs. Numa velocidade quase negativa, o mínimo para não desequilibrar e cair, e cair, naquele momento, passava a ser um desejo. É o instante em que a cabeça fica apenas em cima do pescoço, sem nenhuma utilidade. Mas ali permanecia uma única frase, teimosa: “Eu tenho que chegar.”
Faltavam dez metros para o topo do morro e eu resolvi desistir. Parei. Caí exausto sobre a grama da encosta, ao lado dos paralelepípedos, sem sentir as pernas, quase em sintomas de desmaio, ouvindo o próprio coração como quem ouve o surdo marcante de uma bateria. Foi quando um amigo me disse: “Te levanta. Faltam só dez metros para começar a descida.” E meu cérebro começou a pensar, lentamente, como minhas últimas pedaladas.
Empurrei aqueles dez metros. E do topo vi a cidade de Morretes lá embaixo, quase na orla do mar. Que sentimento indescritível, como se o mundo, até então, subindo, tivesse finalmente aprendido a descer. Parei para beber água, água pura das nascentes, e senti o meu próprio corpo voltando para dentro de mim. Momentos depois, a descida sobre o calçamento: o vento de volta na cara, as imagens da natureza passando como bênçãos e o sentimento que todo ciclista almeja. A chegada.
E as lições que a gente aprende? A serra cobra o dobro do que devolve, mas devolve em dobro também. Aprende-se que a descida nunca vem antes da subida e que o sabor da chegada é feito exatamente do preço que se pagou. Aprende-se que desistir não mora no meio do caminho, mas nos últimos dez metros, quando o corpo já não responde e a mente se recusa a enxergar o fim. Aprende-se, sobretudo, que ninguém chega sozinho: foi uma voz amiga que me devolveu a estrada quando tudo em mim já tinha desistido. E que aquele pensamento de que “eu tenho que chegar” não era teimosia, era a única coisa que ainda restava de mim E era o suficiente.
No fim, entendi que a vida é uma Serra da Graciosa: sobe-se o dobro do que se desce, e quase se desiste dez metros antes do topo. Mas é exatamente ali, dez metros antes, que mora o topo. Aprendi que todo topo, qualquer chegada, se parece com uma porta que se abre, não para fechar o caminho, mas para devolver o vento ao rosto e a estrada aos pés. Mal a porta se fecha nas costas, mal o corpo termina de doer, já pulsa em mim a pergunta que todo ciclista carrega no peito:
Quando será a próxima?
*Manoel Lopes é autor de “Na Trilha dos Deuses”, livro que narra a jornada de um ciclista em busca da sustentabilidade, promovendo a conscientização ambiental e práticas mais responsáveis no cotidiano e do “Manual do Planejamento Cicloinclusivo – Diretrizes para as Cidades Sustentáveis e Resilientes”. Como escritor, palestrante e colunista, se destaca em Cotia, influenciando positivamente a comunidade e promovendo uma cidade mais sustentável e conectada com questões ambientais. Escreve mensalmente no Jornal Cotia Agora. @manoellopesgon

