Cotia tem a 2ª maior taxa de acidentes com vítima da Grande SP e a Raposo concentra metade das mortes

A Raposo Tavares é, de longe, o ponto mais perigoso do trânsito de Cotia. Desde 2022, quase metade dos acidentes com vítima (45%) e metade das mortes (41 de 80) aconteceram no trecho da rodovia dentro do município. Nenhuma outra via chega perto. Em 2026, a via seguinte no ranking, a Estrada da Roselândia, teve 13 acidentes com ferido, contra 87 na Raposo.

Onde
Os boletins registram o quilômetro da rodovia. Os acidentes se espalham por todo o trecho entre o km 21 e o km 39, mas o km 26 se destaca, com 103 registros desde 2022 (9% do total com km informado). Em seguida aparecem o km 30 (70), o km 23 (69), o km 31 (67) e o km 38 (61).

Quando
A morte na Raposo é noturna: 32 das 41 mortes (78%) foram registradas entre 18h e 6h. É um padrão diferente do acidente só com feridos, que se distribui ao longo do dia, com pico à tarde. Em 2026, as três mortes na rodovia ocorreram às 17h23 (13/02, km 22), às 22h34 (02/05, km 28) e às 4h45 (20/06, km 31).

Ressalva importante sobre 2025
Em 2025, os boletins de acidente com ferido em Cotia caíram 35% e os da Raposo, 63%. No mesmo ano, as cidades vizinhas ficaram estáveis: Carapicuíba passou de 524 para 509, Itapevi de 240 para 231, Embu das Artes de 245 para 235 e Osasco de 1.060 para 1.033. Além disso, 2025 teve o maior número de mortes da série (23). Uma queda real de um terço nos acidentes com ferido, acompanhada de alta nas mortes, é pouco provável. O mais provável é uma mudança na forma de registro, como a delegacia ou o endereço lançado no boletim. Recomendamos não comparar 2026 com 2025 sem antes confirmar com a SSP-SP. Por isso, este documento compara 2026 com a média de 2022 a 2024. Contra essa média, o 1º semestre de 2026 teve 23% menos acidentes com ferido (250 contra 327) e o mesmo patamar de mortes (6 contra 5,7)

Proporcionalmente à população, Cotia teve a segunda maior taxa de acidentes com vítima entre os 39 municípios da Região Metropolitana no primeiro semestre de 2026: 87 ocorrências por 100 mil habitantes. A média da região foi de 57. Barueri, cortada pela Castello Branco, lidera com 114. O padrão é o mesmo nas duas cidades: municípios de porte médio atravessados por rodovias de tráfego pesado, em que boa parte dos acidentes envolve
quem só está de passagem.

Óbitos por acidente de transporte (DATASUS/SIM)
Os boletins de ocorrência contam a morte no local do acidente. O Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, conta todas as mortes por acidente de transporte, inclusive as que acontecem dias depois, no hospital. O dado mais recente fechado pelo DATASUS é o de 2024.

Em 2024, 32 moradores de Cotia morreram em acidentes de transporte. A taxa de 11,1 por 100 mil habitantes é 1,7 vez a da Região Metropolitana (6,5) e coloca Cotia em 12º lugar entre os 39 municípios. As maiores taxas estão nas cidades menores e mais rurais das bordas da região, como Salesópolis, Guararema e Santa Isabel, onde poucas mortes já pesam muito na taxa. Entre as cidades com mais de 200 mil habitantes, Cotia tem a 4ª maior taxa, atrás de Barueri (14,5), Itapevi (14,1) e Guarulhos (11,2).
Contando onde a morte aconteceu, e não onde a vítima morava, o número de Cotia sobe para 46 em 2024. A diferença corresponde, em boa parte, a pessoas de outras cidades que morreram na Raposo ou foram atendidas em hospitais de Cotia.

A moto é o centro do problema. Entre 2022 e 2024, 47 dos 93 moradores de Cotia mortos no trânsito eram motociclistas, ou seja, metade. Os pedestres vêm em seguida, com 23 mortes (1 em cada 4). Ocupantes de carro somam só 7.

Chuva e acidentes: o que o Inmet mostra
Para medir o efeito da chuva, cruzamos a hora de cada boletim com a chuva registrada naquela mesma hora pela estação automática do Inmet em Barueri (A755), a cerca de 10 km do centro de Cotia. Quando essa estação não tinha registro, usamos a média das estações de Interlagos (A771) e do Mirante de Santana (A701). O período analisado vai de 2022 a 2024 ede janeiro a junho de 2026. 2025 fica de fora pela ressalva de registro descrita na seção 1.

Na Raposo, a chuva pesa. Nas horas secas, a rodovia registrou 3,4 acidentes com vítima a cada 100 horas. Nas horas com chuva, foram 4,5, ou seja, 32% a mais. As horas chuvosas são 8,6% do tempo e concentram 11,1% dos acidentes da rodovia (119 de 1.075 no período analisado).

Na cidade como um todo, quase não faz diferença. A frequência passa de 7,1 para 7,3 acidentes a cada 100 horas, uma variação de 2%. Faz sentido: em vias urbanas, a velocidade é menor e a chuva também reduz o número de pessoas circulando. Pela mesma razão, os dias chuvosos não têm mais acidentes no total do que os dias secos. Em 2026, a média foi de 1,6 acidente por dia seco e de 1,1 a 1,3 por dia de chuva. O risco não está no dia chuvoso, e sim na hora em que está chovendo, na rodovia.
As mortes são poucas para uma conclusão firme. Das 57 mortes com hora informada no período, 6 ocorreram em hora de chuva (10,5%), pouco acima da fatia de tempo chuvoso (8,6%).

2026 mês a mês

Março e abril de 2026 foram os meses com mais acidentes com vítima em Cotia (51 e 52). Janeiro, o mês mais chuvoso do semestre, teve o menor número (31), o que reforça a leitura de que o total mensal responde mais ao volume de tráfego do que à chuva. Entre os dias da semana, a sexta-feira lidera em 2026, com 50 dos 256 registros, e a quarta-feira tem o menor número (20).

Como os números foram feitos
Boletins de ocorrência (SSP-SP): dados criminais abertos da Secretaria da Segurança Pública, município de Cotia, por data da ocorrência. “Acidente com vítima ferida” corresponde aos boletins de lesão corporal culposa na direção de veículo automotor (art. 303 do CTB). “Morte” corresponde aos boletins de homicídio culposo na direção de veículo automotor (art. 302). Cada linha é um boletim distinto. Conferimos que não há duplicidade. O número de pessoas feridas pode ser maior que o de boletins. A Raposo inclui os boletins com logradouro “Rodovia Raposo Tavares”, “SP 270” ou “SP-270” e seus acessos. Os dados de 2026 vão até 30 de junho, porque julho ainda está incompleto na base da SSP.

Crédito: Crime Brasil – https://www.crimebrasil.com.br/ , especial para o Jornal Cotia Agora

Foto: Artesp