43 anos depois de sua criação, orelhões estão em extinção e em Cotia, aparelhos começam a sumir

Já foi o tempo em que tínhamos que andar com um monte de fichas telefônicas para poder usar os orelhões espalhados por todo canto do Brasil.

Tinha gente que carregava mais fichas do que moedas. Quem trabalhava na rua então, toda hora precisava ligar para a empresa ou até para a casa. Nas viagens, não podia faltar a ficha de DDD, um pouco mais clarinha.

E quando o orelhão era muito usado, enchia de fichas e a pessoa não conseguia mais efetuar ligações até que o funcionário da Telesp passasse para recolhê-las.

orelhao2Passado um tempo, as fichas foram substituídas pelos cartões, principalmente por causa do vandalismo, pois era comum a depredação dos aparelhos para roubar as fichas que ficavam ali contidas.

Lançado em 1972 em todo o país, projetado pela arquiteta chinesa radicada no Brasil, Chu Ming Silveira, os orelhões foram inicialmente lançados em São Paulo e Rio.

Mas, com o passar do tempo e a chegada dos celulares, os orelhões passaram a se tornar obsoletos para muita gente. As próprias companhias telefônicas pararam de investir na instalação de novos e de uns anos para cá, diminuíram o número de telefones públicos.

Em Cotia isso é visível. Na periferia existem poucos e há bairros que contam com apenas um ou dois aparelhos. Na região central eles foram sendo retirados aos poucos e apenas algumas unidades ainda permanecem nas calçadas, muitos sem manutenção e mudos.

orelhao3Demos um giro pelo centro de Cotia para ver quantos orelhões ainda existem. Vale lembrar que o centro de Cotia ainda é o ‘coração financeiro’ da cidade, pois existem agências bancárias, escritórios, empresas, correios e diversos órgãos e instituições e, consequentemente, a circulação de muitas pessoas.

Nosso giro começou na Granja Carolina, onde está a redação do Cotia Agora e fomos até a prefeitura, olhando pelas ruas próximas ao corredor de ruas por onde normalmente circula a maior parte dos veículos.

Contamos pouco mais de 20 aparelhos e apenas seis estavam sem funcionar. Nenhum dos aparelhos era usado por alguém no momento em que nossa reportagem esteve nos locais.

Na Praça Joaquim Nunes a operadora instalou novos aparelhos nesta semana.

fichaPodem entrar em extinção?

O número de telefones celulares não para de crescer no Brasil. Segundo dados, só em 2014 eram mais de 280 milhões em uso no Brasil. Enquanto isso, os orelhões caem no esquecimento. Segundo a Anatel, cada aparelho faz, em média, apenas duas ligações por dia.

Por falta de uso, a Anatel estuda reduzir ainda mais o número de “orelhões” no país. Porém, o problema é justamente nos locais onde o sinal dos celulares é fraco ou simplesmente não pegam. Em Cotia há ‘pontos negros’, principalmente nas regiões mais afastadas, como os arredores de Caucaia, Morro Grande e Jardim Japão.

Para parte da população desses pontos, o orelhão é ainda um grande aliado para falar com alguém distante. O problema é que muitos desses aparelhos estão quebrados e sem manutenção, dificultando a vida desses moradores.

O estado de São Paulo conta atualmente menos de 200 mil “orelhões”. Em todo o Brasil, são pouco mais de 1,7 milhão – número muito inferior ao de celulares. Isso porque, nas áreas urbanas, onde o sinal de telefonia móvel é bom, a população raramente se lembra do telefone público.

Pesquisamos no site da Anatel para saber quantos aparelhos ainda existem em Cotia, mas o link está com problemas. Procurada por nossa reportagem, a Anatel e a Vivo não responderam.

telespMudanças na cor

Os orelhões foram lançados em duas cores: laranja (que era o convencional) e azul (para ligações DDD).

Em São Paulo, com a venda da Telesp para a espanhola Telefonica, passaram a receber a cor verde-limão. A Vivo comprou a Telefonica e aos poucos foi trocando as “orelhas” pela cor grená, azul, laranja e verde-limão.

Associação é contra redução

A Proteste Associação de Consumidores é contra a redução do número de orelhões que as Teles são obrigadas a manter, como a Anatel está propondo na revisão quinquenal dos contratos de concessão de telefonia fixa e do plano geral de metas da universalização. E defende que passem a oferecer outros serviços, como sinal de internet via wi-fi.

Em ofício enviado na segunda-feira (17) ao Ministério das Comunicações e Ministério Público Federal, a Proteste reforça que o telefone público é um item essencial para a promoção de garantia de acesso ao serviço mais básico para os consumidores de baixa renda e de pequenas cidades. E propõe que se estabeleçam obrigações de universalização específicas para cada região. Num país com as características socioeconômicas do Brasil, o telefone público desempenha papel importante na garantia de acesso às telecomunicações.

E mesmo nas economias e mercados mais desenvolvidos, os telefones públicos não perdem a importância. Hoje são exigidos quatro orelhões por mil habitantes, metade da densidade obrigatória de quando as Teles foram privatizadas. São 869 mil orelhões.

Na avaliação da Proteste, a ociosidade dos orelhões pode ser justificada pela falta de manutenção adequada e de fiscalização para que os aparelhos não fiquem sem funcionar, por falta de reparos. E o consumidor tem dificuldades para adquirir os cartões.

A importância dos telefones públicos é incontestável, especialmente porque 74,85% das linhas de celulares são pré-pagas e estão concentradas nas classes C, D e E, que utilizam o serviço mais para receber chamadas do que para originar. A média mensal de recarga é de R$ 15,00.

Enquanto os valores da assinatura básica e telefonia móvel forem proibitivos, como são hoje, a quantidade de orelhões não deve ser reduzida e sim racionalizada, com a especificação de metas mais adequadas a cada região e localidade.

A Proteste já cobrou da Anatel que obrigue a distribuição mais eficiente dos pontos de vendas dos cartões e a ampliação dos postos de venda nos locais públicos, bem como a disponibilidade de cartões com valores menores, a fim de viabilizar a sua aquisição para os consumidores de baixa renda.

O prazo de reparo, em nenhuma hipótese, deverá ser superior a 48 horas, pois se trata de serviço público essencial, cuja continuidade e prestação em condições adequadas devem ser garantidas. A caracterização da hipótese de não atendimento deve se dar depois de no máximo cinco dias de falta de funcionamento do TUP.

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Muitos estão assim, fora de operação
Muitos estão assim, fora de operação
Propaganda irregular e falta de respeito do cidadão
Propaganda irregular e falta de respeito do cidadão
Orelhões novos na praça
Orelhões novos na praça

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Um comentário em “43 anos depois de sua criação, orelhões estão em extinção e em Cotia, aparelhos começam a sumir

  • 27/11/2015 em 23:30
    Permalink

    Parabéns pela sua reportagem, Infelizmente acho que os orelhões vão entrar em extinção. Uma pena, Tenho um blog e se puder, ficarei grato com sua ajuda, dando relatos, fotos, etc. Se tiver interesse entre em contato pelo e-mail ou nos comentários do meu blog. Obrigado e parabéns!

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