Coluna de Manoel Lopes: Gabriel, o pequeno mestre do pedal
Por Manoel Lopes – Coluna Pedalar Mais
No último final de semana, participei de um pedal que ficará marcado na minha memória não apenas pelos desafios do trajeto, mas pela companhia especial de um garoto de aproximadamente 8 anos chamado Gabriel. Um menino que, com sua coragem, sabedoria e alegria de viver, transformou aquele percurso em algo muito mais significativo.
Era um trajeto curto, cerca de 9 km, mas repleto de dificuldade. Subidas íngremes que exigiam a força até mesmo dos mais experientes. Confesso que precisei empurrar minha bicicleta em alguns momentos. Parte do percurso seguia ao longo de uma linha de trem com pedras britas que tornavam o deslocamento ainda mais técnico. Foi ali que meu encontro com Gabriel me ensinou mais do que qualquer manual poderia ensinar.
De imediato, percebi que ele não era uma criança qualquer. Comunicativo, curioso e cheio de energia, Gabriel veio pedalar com a mesma disposição de um adulto, mas com a leveza de quem encara o mundo como um laboratório de descobertas. Enquanto pedalávamos ao lado dos trilhos, conversávamos sobre as pedras britas, e como elas dificultava nosso passeio. Ele, com sua curiosidade, narrava que elas estavam ali por todo o trajeto por algum motivo, falando com uma naturalidade que mais parecia um engenheiro em miniatura. Depois de chegar em casa, pesquisei no Google e confirmei: as britas realmente têm um papel essencial. Servem para distribuir o peso do trem, estabilizar os trilhos, amortecer as vibrações, permitir a drenagem da água e evitar o crescimento de vegetação, além de dificultar nossa pedalada, é claro.
Porém, o momento que mais marcou aconteceu enquanto seguimos por essa mesma pista de pedras. Gabriel perdeu o controle do guidão e caiu. Mas não foi um tombo qualquer, foi uma verdadeira aula de como lidar com as adversidades. Ele percebeu que não conseguiria evitar a queda e tomou a decisão de como cair. Jogou seu corpo de forma calculada, protegendo-se, e não sofreu sequer um arranhão. Eu fiquei impressionado. Ali, uma lição preciosa me foi ensinada: quando perdemos o controle de uma situação, o melhor que podemos fazer é focar na próxima. Gabriel, em sua pouca idade, demonstrou algo que muitos adultos ainda têm dificuldade em aprender: enfrentou o imprevisto com calma e inteligência.
Depois disso, segui o trajeto observando aquele pequeno grande ciclista. Ele estava sempre contando histórias, conversando com os adultos, e, mesmo diante das dificuldades do percurso, mantinha-se cheio de energia e entusiasmo. No final, me peguei refletindo sobre como subestimamos as crianças às vezes. Gabriel não saiu dali apenas como um companheiro de pedal, mas como um verdadeiro professor da vida.
Aprendi que, muitas vezes, é necessário parar de ensinar para ouvir, observar e aprender com aqueles que, apesar da pouca idade, têm muito a oferecer. Sai daquele pedal com o coração leve e a certeza de que ganhei um amigo. Já combinamos: em setembro, vamos pedalar juntos pela orla carioca.
Histórias como essas nos mostram como os encontros mais simples podem transformar momentos comuns em lembranças especiais. E, sem dúvida, Gabriel transformou a minha pedalada em uma lição de coragem, aprendizado e amizade.
Que venha setembro e mais aventuras ao lado desse pequeno mestre do pedal!


*Manoel Lopes é autor de Na Trilha dos Deuses, livro que narra a jornada de um ciclista em busca da sustentabilidade, promovendo a conscientização ambiental e práticas mais responsáveis no cotidiano. Como escritor e colunista, se destaca em Cotia, influenciando positivamente a comunidade e promovendo uma cidade mais sustentável e conectada com questões ambientais. Escreve no Jornal Cotia Agora.

