Opinião. Orçamento 2026 de Cotia: Abaixo do mínimo na Saúde e milionário no “Custo do Passado”

Por Fernando Confiança Arquiteto, Urbanista e Especialista em Gestão da Mobilidade Urbana

O Orçamento Anual (LOA) de Cotia para 2026, consolidado no Substitutivo nº 1, fixou a despesa em R$ 1,728 bilhão. Este é um volume significativo de recursos, mas a forma como está planejado levanta sérios questionamentos sobre as prioridades e a eficiência da gestão municipal.
A análise técnica da peça orçamentária revela que o Executivo está direcionando recursos escassos para custear erros do passado e manter uma estrutura administrativa inflada, em detrimento dos serviços essenciais.

  1. A Saúde Planejada no Limite da Irresponsabilidade
    A área da Saúde é onde a falta de prioridade se torna mais grave. A Constituição Federal exige um investimento mínimo de 15%.
    Ao analisar o orçamento da Secretaria de Saúde, o valor de R$ 252 milhões representa, numericamente, 14,58% do valor total orçado. Ou seja, o planejamento inicial já coloca o investimento em Saúde na linha de corte, flertando com o mínimo legal.
    Uma gestão séria não planeja no limite.

O que a dotação de 14,58% de Cotia revela é uma falha de prioridade política, especialmente quando comparada com a realidade regional: a média de investimento em Saúde nos municípios de São Paulo é de cerca de 25,1%. Contar com Créditos Suplementares e artifícios contábeis para alcançar o mínimo exigido por lei é prova de planejamento fiscal amador em uma área que não pode esperar.

  1. O Preço de Pagar Contas Antigas
    A ineficiência da gestão passada e a falta de rigor fiscal continuam pesando. Dentro do orçamento da Secretaria da Fazenda, identificamos que mais de R$ 69,4 milhões estão comprometidos apenas com o pagamento de Juros e Amortização da Dívida.

São quase R$ 70 milhões que deixam de ser investidos em tecnologia, saúde ou educação para pagar o “Custo do Passado”. Este valor representa mais de 51% do orçamento da Fazenda. A cidade está pagando um preço altíssimo pelo endividamento, e a manutenção da rotina de anistias fiscais é um sintoma crônico dessa fragilidade financeira.

  1. Urbanismo de Fachada: Concreto sem Inteligência
    Como urbanista e especialista em mobilidade, vejo um desequilíbrio estrutural que explica a lentidão da cidade:
    • R$ 292,6 milhões para a Secretaria de Obras (focada em infraestrutura pesada).
    • Apenas R$ 41,7 milhões para a Secretaria de Transporte e Mobilidade.
    Para cada R$ 7,00 investidos em obras, apenas R$ 1,00 vai para a inteligência de tráfego e planejamento logístico. O orçamento privilegia o voto visual (o asfalto novo) em detrimento da funcionalidade (a fluidez do trânsito). Obras sem planejamento de mobilidade resultam apenas em congestionamentos em ruas recém-reformadas.
  2. Sugestão para a Racionalização e Eficiência
    O último ponto de ineficiência é a estrutura administrativa inchada. O orçamento de 2026 sustenta secretarias com verbas simbólicas, como a de Turismo (R$ 1,9 milhão) ou Relações Institucionais (R$ 3 milhões).

Manter uma estrutura de alto escalão (Secretário, Adjuntos, Chefes de Gabinete) para gerir orçamentos tão minúsculos é um sinal de que os recursos são absorvidos pela própria máquina.

A solução para Cotia passa por uma racionalização administrativa. É preciso considerar a fusão técnica de pastas com funções complementares. Obras, Mobilidade, Habitação e Meio Ambiente poderiam ser unificadas em uma Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Planejamento única, garantindo que o planejamento seja integrado.

Ao reduzir o número de gabinetes e eliminar estruturas duplicadas, a cidade liberaria milhões de reais que poderiam, finalmente, ser destinados a cumprir o mínimo na Saúde e a investir em uma mobilidade inteligente.
O dinheiro público exige rigor técnico. Cotia precisa de menos estruturas políticas e mais gestão eficiente.