Manoel Lopes: Onde entra o ciclismo nesse novo cenário?

O avanço da Indústria 4.0 vem transformando a forma como produzimos, consumimos e nos deslocamos. Automação, inteligência artificial e conectividade redesenham cidades, mas também levantam uma pergunta essencial: onde entra o ciclismo nesse novo cenário? Em meio a tanta tecnologia, a bicicleta pode parecer simples demais. E é justamente nessa simplicidade que está sua força. 

O ciclismo reúne eficiência, sustentabilidade e uso inteligente de recursos. Em cidades pressionadas por congestionamentos e emissões, surge como solução imediata. Integrado a sistemas e dados, deixa de ser alternativa e passa a compor a mobilidade do futuro. Ainda assim, segue tratado como coadjuvante. Persistem investimentos em modelos tradicionais e a ideia de que inovação precisa ser complexa quando, muitas vezes, o melhor caminho é o mais simples. 

Inserir o ciclismo na lógica da Indústria 4.0 exige mudança de mentalidade. Inovar não é apenas criar o novo, mas escolher o melhor. Isso passa por políticas públicas, integração com outros modais e infraestrutura segura. Mais do que perguntar “onde o ciclismo entra?”, talvez devêssemos questionar por que ele ainda não está no centro dessa transformação. 

Em Cotia, onde o ciclismo ainda é praticamente ausente no planejamento urbano, o primeiro passo não exige grandes obras, mas sim uma mudança de mentalidade. É nesse contexto que o trabalho da União dos Ciclistas de Cotia se torna fundamental: ao promover a cultura da bicicleta, incentivar a mobilidade ativa, dialogar com a administração pública e dar voz aos ciclistas.

Iniciativas como as da UCC mostram que é possível mudar esse cenário ao promover a mobilidade ativa e aproximar sociedade e poder público. Pequenos movimentos já começam a redesenhar o futuro. 

E por fim, não podemos deixar passar o essencial.  
Como canta Fagner em Espumas ao Vento, composta por Marisa Monte e Moraes Moreira, há sentimentos que não se dissipam com o tempo. Assim também é o ciclismo: não é moda, não é passageiro, não se desfaz como espumas ao vento. É um compromisso com a cidade, com a vida e com o futuro. Pode até ser ignorado por um tempo, mas não desaparece, porque quem entende seu valor sabe que esse caminho, uma vez escolhido, não tem volta. Cidades melhores não nascem só da tecnologia, mas das escolhas que fazemos todos os dias.

*Manoel Lopes é autor de Na Trilha dos Deuses, livro que narra a jornada de um ciclista em busca da sustentabilidade, promovendo a conscientização ambiental e práticas mais responsáveis no cotidiano. Como escritor e colunista, se destaca em Cotia, influenciando positivamente a comunidade e promovendo uma cidade mais sustentável e conectada com questões ambientais no Jornal Cotia Agora.