Conto de Antônio dos Santos Camargo: Subestimação da raiva
Josefa ficou muito brava quando Joãozinho, seu filho de sete anos de idade, chegou e mostrou sua calça rasgada na perna. Ela havia gastado suas economias na compra da roupa que o menino estava usando na festa de casamento de sua sobrinha, que acontecia na fazenda de sua família. Ela não se preocupou muito com suas próprias roupas pois não se importava que os convidados a vissem como pessoa simples e pobre, principalmente suas irmãs e seu irmão, todos abastados financeiramente, mas seu filho era inocente e não merecia ser discriminado pelos primos. Quando ele contou que tinha sido atacado por um cachorro e mostrou o ferimento em sua perna, a ira se transformou em preocupação e decidiu sair da festa mais cedo para cuidar do menino.
Antes de sair, Josefa contou às irmãs o motivo da saída precoce. Rosa, sua irmã mais velha demonstrou um certo cuidado com o ocorrido. Francisca, irmã do meio, mostrou indiferença e Antônio, seu irmão com idade intermediária, nem foi comunicado. Apenas sua sobrinha, a noiva, ficou chateada com sua saída. Aliás, Josefa só tinha ido àquela festa por insistência da sobrinha. Pelos outros não teria ido, embora admitisse que era uma boa oportunidade de apresentar a beleza e a educação de seu filho à sua família e provar que, apesar dos sofrimentos, estava conseguindo criá-lo e educá-lo sozinha, mesmo sendo desprezada por eles.
Josefa começou a se sentir desprezada quando comunicou sua gravidez à família e disse que o pai era filho do empregado que estava sendo acusado, pelo Antônio, de roubo e venda de um animal da fazenda. Antônio, seu irmão, é um homem violento e administra a fazenda desde a morte de seus pais. Ele ameaçou de morte o empregado se ele não pagasse o prejuízo causado. Sem condições de pagar, o empregado foi obrigado a fugir com sua família às escondidas, inclusive com o rapaz, pai da criança, e que desconhecia a gravidez da menina. Na época, ambos tinham dezessete anos de idade.
Quando tomaram conhecimento da gravidez da irmã caçula, suas irmãs e seu irmão decidiram por abortar a criança, sem ao menos consultar a menina. Eles não admitiam a ideia de serem tios de uma criança que era filha de um ladrão, além de alegarem que uma gravidez fora do casamento iria manchar a imagem da família. Josefa não aceitava essa decisão e, diante de tanta pressão e ameaça, decidiu fugir de casa para a cidade vizinha. Parou de estudar, alugou uma casinha e começou a trabalhar para se sustentar e se preparar para o filho que viria a nascer. Com a ajuda de vizinhos e muito sofrimento, conseguiu dar à luz um filho lindo e saudável.
Manteve-se distante da família durante mais de sete anos, até ser convidada por sua sobrinha para o casamento. Nesse período, ela não teve notícia do pai do menino. Foi uma pena eles terem sido obrigados a sair mais cedo da festa, ela percebeu que a beleza e a educação de seu filho haviam causado boa impressão à sua família.
Depois que cuidou do ferimento, Josefa abraçou o filho com carinho e pediu desculpa por ter ficado brava com ele. Joãozinho, então, contou como havia sido atacado pelo cachorro e disse que, além dele, o Silvinho e outro primo mais velho que eles, cujo nome ele não se lembrava, também tinham sido mordidos pelo cachorro. O Silvinho é filho da Francisca e o primo mais velho deveria ser filho do Antônio. Com certeza, suas mães devem ter cuidado dos ferimentos deles, pensou.
Sendo uma das herdeiras, Josefa recebia uma pequena parcela dos lucros da fazenda, aliás uma parcela bem menor que a dos outros pois era seu irmão quem estimava o valor. Esse dinheiro não era suficiente para pagar o aluguel e a escola do Joãozinho. Para completar a renda, trabalhava como diarista em várias casas da cidade. Como ela precisava recuperar o dinheiro gasto na compra da roupa do filho, revolveu aceitar um trabalho em uma casa onde havia se recusado a trabalhar por não gostar da proprietária, depois de passados cinco dias do incidente com o cachorro. Nesse dia, após o trabalho, quando já estava no ponto de ônibus, percebeu que havia esquecido seu celular, justamente no horário de o ônibus chegar. Teve que adiar a volta e correr rapidamente para a casa da patroa implicante. Quando ia pedir licença para adentrar no quarto onde havia deixado o celular, ouviu o patrão perguntando ao jardineiro da casa o que ele tinha ido fazer na fazenda do Antônio, no dia anterior. Ficou estremecida quando ouviu o jardineiro responder que tinha ido matar e enterrar um cachorro que havia ficado louco. Pegou o celular às pressas e voltou para casa o mais rápido que pôde. Em casa, não perdeu tempo, arrumou o filho e foram para o hospital da cidade, onde contou o ocorrido ao médico de plantão. O menino foi submetido a exames específicos e foi constatada a presença do vírus da raiva em seu sangue.
Imediatamente foram tomadas as medidas médicas adequadas para o tratamento, como vacina, antibióticos e outros medicamentos. O menino teve que iniciar um procedimento regular de tratamento que duraria alguns dias. Voltaram para casa aliviados pois os médicos disseram que estava tudo sobre controle e não era para se preocupar. Disseram, ainda, que a determinação e os cuidados dela tinham sido fundamentais para o tratamento.
Já era noite quando chegaram em casa e, depois de alimentados e se preparando para dormir, Josefa se lembrou que seus sobrinhos também tinham sido mordidos.
Lembrou-se que sua irmã Francisca não morava na fazenda e, sim, na capital, distante uns quarenta quilômetros de lá. Ela não dispunha dos telefones das irmãs pois não mantinham contato. Pediu para a vizinha, sua amiga, cuidar do Joãozinho e foi até a fazenda, de ônibus. Rosa não gostou da visita àquela hora da noite, mas se prontificou a avisar a Francisca e o Antônio sobre a situação. Tentou ligar para a Francisca, na frente da Josefa, mas ela não atendeu. Josefa pediu para ela ir à casa da Francisca, de carro, mas ela se recusou. Disse que iria no dia seguinte, de manhã. Disse para ela ficar tranquila que avisaria o Antônio. Não adiantou a insistência de Josefa sobre a gravidade do caso. Voltou para casa tarde da noite.
No dia seguinte, logo de manhã, já com o número do telefone anotado, ligou para a irmã. Rosa disse que não tinha conseguido falar com a Francisca e que a empregada dissera que eles tinham ido ao aeroporto. Disse, também, que o Antônio mandou ela não se meter na vida dele. Desesperada, sentindo que seus irmãos não estavam ligando para a gravidade do caso, decidiu ir ao aeroporto. Chegou ofegante e encontrou sua irmã e sua sobrinha na saída. Contou rapidamente o que tinha acontecido com seu filho e que o Silvinho também estava correndo risco de morte. Francisca disse que o Silvinho tinha acabado de decolar com destino à Disneylândia para passar suas férias escolares. Josefa tentou pedir para ela solicitar a volta do menino, mas a resposta que recebeu a deixou sem palavras.
Francisca disse que aquilo tudo era pura inveja por não poder dar ao filho dela o que ela oferecia ao Silvinho. Josefa, sem ação, abaixou a cabeça e se sentou em uma poltrona, perto da porta de saída, para se recompor. Ajeitou seu vestido branco estampado com flores coloridas e começou a chorar. Ela nem teve tempo de escolher uma roupa melhor para ir ao aeroporto.
Pedro, ao se dirigir à porta de saída do aeroporto, notou aquele vestido branco estampado e o reconheceu. Chegou à frente da Josefa e a fitou com um olhar de interrogação. Ela levou um susto ao reconhecê-lo e demoraram um pouco para iniciarem a conversa. Havia muita coisa para serem esclarecidas depois de mais de sete anos de separação. Ele quis saber primeiro por que ela estava chorando e ela contou, então, toda a história da mordida do cachorro louco. A revolta natural que Pedro sentiu com a narrativa dela ficou ofuscada por saber que ela tinha um filho. Perguntou, com um certo receio da resposta, se ela havia se casado. A resposta negativa e a afirmação de que não tivera outro relacionamento amoroso na vida o deixou profundamente emocionado pois o filho citado e tão amado por ela era, então, seu filho também. Convidou-a a irem para a casa dela de taxi. Além da emoção daquele encontro casual, sentiu um desejo incontrolável de conhecer seu filho. A surpresa que faria a seus pais com sua chegada ficaria para o outro dia.
A apresentação de pai e filho foi bastante emotiva e houve uma atração recíproca, apesar da sonolência do menino após ser buscado na casa da vizinha. Depois de muitos prantos e abraços, o menino foi vencido pelo sono. Vieram, então, os questionamentos e explicações: “Por que ele não foi informado da gravidez dela? Por que ele foi embora sem avisá-la? Por que ela não respondeu suas cartas? Por que ele não deu mais notícias? O que ele fez nesses mais de sete anos? O que ela fez nesse tempo? Como foi a gravidez? Por que ele roubou o animal da fazenda? Por que ela não estava morando na fazenda? A noite seria curta para tantas justificativas.
Pedro achou melhor dar suas explicações primeiro. Disse que ele e seu pai, num momento de desespero, resolveram roubar uma novilha e vendê-la para arrumar dinheiro para o tratamento da doença de seu irmão mais novo. Seu irmão precisava urgentemente de uma cirurgia e eles não tinham como pagá-la. Seu pai chegou a pedir um empréstimo ao Antônio, mas este se negou a emprestar o dinheiro. Decidiram, então, cometer aquele ato ilícito. Graças a isso, seu irmão conseguiu ser tratado e se curou. Por isso, ele não se arrependia do que fez. Ao serem ameaçados pelo Antônio, depois que ele descobriu o roubo, tiveram que fugir à noite. Seu pai não permitiu que ele avisasse Josefa, pois seria muito arriscado. Quando se instalaram em outra cidade, ele enviou vários livros para ela, tendo como remetente a escola de inglês onde ela estudava. Dentro de cada livro havia uma carta, com as explicações e convites para um encontro em um lugar escondido. Ele a esperou nesse lugar várias vezes. Como não apareceu, concluiu que ela havia se decepcionado e desistido dele.
Nesse tempo, arrumou um jeito de estudar e se formou em engenharia agrônoma. Conseguiu um emprego bom no interior de São Paulo e está morando lá. Tem um bom salário e está feliz com a vida profissional, mas não conseguiu esquecê-la. Estava indo fazer uma surpresa para seus pais, quando a encontrou no aeroporto.
Josefa disse que teve que sair de casa logo depois que eles fugiram. Seus irmãos queriam forçá-la a abortar a criança, quando souberam quem era o pai. Por isso não recebeu os livros. Seus familiares também não devem tê-los visto. Se tivessem visto, alguém teria ido ao encontro. Teve que parar de estudar para cuidar da gravidez e, depois, cuidar da criança. A gravidez foi normal e o parto também. O nome do menino é João Pedro, em homenagem a ele.
Como havia prometido, Pedro voltou no dia seguinte e repetiu a visita nos outros três dias seguintes. Um mês depois, ela se mudou em definitivo, juntamente com o filho, para a cidade onde ele mora. Suas vidas seriam retomadas.
Dois meses depois, os três estavam na Disneylândia. Pedro tinha percebido que o filho havia ficado abalado com a vanglória do primo, no dia do casamento. Estavam se divertindo quando Josefa recebeu um telefonema de sua irmã Francisca. Sua irmã disse que precisava receber o perdão dela, antes de se suicidar. Francisca disse que seu filho havia morrido em decorrência da mordida do cachorro e seu marido, quando soube da sua subestimação, resolveu se separar dela. Disse que o filho do Antônio também havia morrido e ele ficou desnorteado, entrou em depressão. Disse que eles estavam querendo vender a fazenda porque o Antônio se afastou da administração e não queria saber de mais nada. Francisca disse que não sentia mais razão para viver.
Josefa levou um susto com aquelas notícias pois, depois que foi morar com Pedro e com o filho, havia se distanciado de vez da família e, por orgulho, ninguém havia comunicado a ela as mortes dos sobrinhos. Implorou para a irmã não fazer uma loucura daquela e pediu para esperar sua chegada. No momento eles estavam viajando, mas o retorno estava marcado para o dia seguinte. Não houve tempo. No dia seguinte eles mal conseguiram acompanhar o sepultamento da irmã. Só restou lamentar e chorar. Pedro tentou conversar com Antônio sobre o roubo do animal, ocorrido há oito anos, mas não conseguiu. Ao chegar em frente ao cunhado e encará-lo, abraçado ao filho, Antônio olhou para o menino, abaixou a cabeça e se afastou chorando.
Abraçado ao pai, Joãozinho nada entendeu.
*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.
