Opinião: O custo invisível do tempo que você perde

Por Fernando Confiança

5h30 da manhã. O despertador toca e a primeira coisa que você sente não é energia, é o peso da rotina. Antes mesmo de colocar os pés no chão, sua mente já está no trânsito. Você faz o cálculo mental: quantos minutos para o atraso, quanto dinheiro de combustível, quanto tempo a menos de café da manhã com seus filhos.

Você sai de casa e a cidade parece agir como um obstáculo. O asfalto irregular que não flui, a rua que não tem iluminação, a falta de segurança que te obriga a trancar tudo. A cidade, em vez de ser o lugar onde sua vida acontece, é um cenário de guerra contra o relógio e contra o seu bolso.

E aqui está a verdade que ninguém te conta: esse cansaço não é um erro seu. Não é “falta de sorte”.

Como arquiteto, eu olho para o nosso mapa e vejo o porquê. O trânsito travado, a insegurança nas esquinas e o custo de vida que não para de subir são sintomas de um planejamento que esqueceu de quem mora aqui. Quando quem decide sobre a cidade ignora a conexão entre onde você mora e onde você trabalha, o resultado é o caos que você enfrenta todo santo dia.

O problema não é o carro que você dirige ou o bairro que você escolheu. O problema é a forma como a cidade funciona que foi montada sem pensar na sua qualidade de vida.

É por isso que a segurança pública parece inalcançável. Segurança não se faz apenas com vigilância; se faz com “ruas vivas”, cheias de gente, com comércio, pessoas circulando, que naturalmente afastam a violência. Quando a cidade isola as pessoas e privilegia o vazio, a insegurança ocupa o lugar.

Quando as ruas, a luz e transporte não funcionam, o custo de vida dispara, porque a ineficiência da cidade é cobrada diretamente no preço do que você compra e na energia que você gasta tentando sobreviver a ela.

O que acontece com você não é um acidente; é uma escolha feita por quem planejou (ou deixou de planejar) esta cidade.
Mas existe uma saída. A indignação que você sente quando chega exausto ao final do dia precisa ser o combustível para algo novo. Nós não precisamos aceitar que a cidade seja um fardo. Nós podemos exigir um planejamento que coloque o cidadão — e não o obstáculo — no centro do projeto.

O primeiro passo para mudar a nossa realidade é entender que a cidade é nossa. Ela deveria servir às nossas necessidades, e não o contrário. É hora de parar de aceitar o caos como o “normal” e começar a perguntar: de que forma podemos desenhar um lugar que, finalmente, trabalhe a favor da gente?

A transformação que tanto esperamos começa quando paramos de lutar sozinhos e passamos a exigir a qualidade de vida que é, por direito, nossa.
E fiscalizar não é difícil. Está ao alcance de qualquer pessoa com um celular. Acesse o site da Prefeitura, veja o Portal da Transparência, leia o que está sendo comprado com o seu dinheiro e diga o que você pensa.

*Fernando Confiança é arquiteto e urbanista, mora em Cotia e acredita que cidade boa começa com cidadão informado.
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