Conto de Antônio dos Santos Camargo: Cheiro de merda
É usual artistas de teatro desejarem “merda” aos seus colegas que vão se apresentar. Isso vem lá da antiguidade, quando os espectadores iam ao teatro de charrete, carroça ou carruagem, puxados por cavalos, pois não havia automóveis naquela época. Então, pela quantidade de fezes depositada pelos cavalos tinha-se uma ideia da quantidade de pessoas que tinham ido ver o espetáculo. Dessa forma, dava para deduzir se o espetáculo tinha sido um sucesso ou não. Assim, quando um artista diz ao colega “merda para você”, está desejando que muitas pessoas assistam à peça, está desejando sucesso ao colega. Minha história nada tem a ver com esta, exceto pela alusão à merda.
Um pequeno sitiante de uma cidadezinha do interior de São Paulo, cansado com o descumprimento das promessas dos políticos e das repetidas candidaturas das pessoas influentes da cidade, resolveu se candidatar a prefeito. Ele sabia falar bem, tinha boas ideias, boas intensões, mas não tinha dinheiro e nem amigos influentes para ajudá-lo na campanha. Mesmo assim resolveu se candidatar. Seu nome é João do Cheiro. É casado,
tem um filho de oito anos, que tem um cachorro chamado Totó. Joãozinho, seu filho, é um menino muito esperto e é seu cabo eleitoral mais eficiente. Ele conversa com seus amiguinhos na escola e pede para convencer os pais deles a votar em seu pai. Diz que seu pai vai construir uma creche na cidade, um parquinho e um hospital.
Com muito custo, João do Cheiro conseguiu reunir umas cinquenta pessoas no salão paroquial da cidade para anunciar sua candidatura. Joãozinho estava lá, bem arrumadinho pela sua mãe, usando um terninho e, até um lencinho no bolso do paletozinho. Exercia sua função de cabo eleitoral quando, de repente, sentiu uma vontade danada de ir ao banheiro. Com certeza, alguma coisa que ele comera no almoço não lhe fez bem. Deixou os “santinhos”, que estava distribuindo, sobre a mesa e saiu correndo para o banheiro. Só havia um banheiro no salão e estava ocupado. Joãozinho correu para fora do salão em busca de um lugar para fazer a necessidade, mas, nesse dia, estava chovendo e ele iria molhar sua roupinha nova. Ele ficou desesperado, olhou para os lados e viu uma abertura do salão que dava acesso à laje, onde tinha uma escada metálica afixada na parede. Não perdeu tempo, subiu pela escada e chegou à laje do salão. Viu uma bacia de alumínio, acomodada entre o centro e uma das extremidades do salão. Não perdeu tempo, foi até a bacia, abaixou as calças e fez a necessidade dentro da bacia. Na falta de papel higiênico, teve que usar o lencinho para se limpar. Desceu da laje aliviado e voltou ao salão para continuar sua tarefa de distribuição de “santinhos”. A chuva começou a ficar forte e logo virou um temporal. Com isso, João do Cheiro teve que atrasar sua apresentação. Acontece que a bacia que Joãozinho usou não estava lá por acaso, havia sido colocada para reter a água de uma goteira do telhado. Era uma coisa provisória, até que o telhado fosse consertado. Mas, com aquele temporal, não estava gotejando água na bacia, estava escorrendo. Não demorou muito e a bacia encheu-se de água e começou a entornar aquele líquido amarelado sobre a laje. Caprichosamente, a água ganhou um caminho que levava ao centro da laje, onde havia um orifício, exatamente sobre o ventilador de teto, que estava ligado. As gotículas amarelas começaram a ser lançadas, pela hélice do ventilador, sobre as pessoas, justamente no momento que João do Cheiro resolveu iniciar sua apresentação.
• Boa tarde a todos! Meu nome é João do Cheiro e agradeço… – não terminou a frase porque alguém lá do meio do salão gritou:
• Cheiro de merda!
• Meu amigo, – disse João, tentando manter a compostura – eu respeito sua preferência por outro candidato, mas não precisa me ofender. Como eu disse, meu nome é João do Cheiro e…
• Cheiro de merda! – gritou outro lá do fundo.
• Assim fica difícil – disse João, indignado – eu só quero…
• João, cheiro de merda! – gritou seu compadre na frente do palco improvisado. Foi a deixa para todos saírem do salão. Em cidade pequena, a notícia corre fácil.
Logo a cidade inteira ficou sabendo do episódio. Obviamente, os adversários do João
começaram a fazer piadas sobre o ocorrido e começaram a espalhar na cidade que havia um candidato chamado João do Cheiro de Merda. João pensou em desistir da candidatura, mas, como uma de suas características era a teimosia, resolveu continuar.
Só que esse episódio deixou as pessoas curiosas. De repente, João começou a ser comentado na cidade e, embora de forma negativa, começou a ficar famoso. Todos queriam conhecer esse tal de João do Cheiro de Merda. Sabendo disso, João começou a pensar em uma forma de explorar essa condição inusitada.
Era costume na cidade os candidatos fazerem a primeira apresentação juntos, na praça central, antes de começarem suas campanhas. Em vez de terno e gravata, como os outros, João resolveu se apresentar em trajes de agricultor: camisa xadrez, calça de brim, botina e chapéu. Foi em seu jipe velho, juntamente com sua esposa, com o Joãozinho e com o Totó. O apresentador quis logo descartar o João e pediu que ele fizesse seu
discurso antes mesmo dos outros candidatos chegarem. João agradeceu e começou seu discurso afiado.
• Meu nome é João do Cheiro, mas os senhores só conhecem meu nome de fama: João de Cheiro de Merda. Os senhores sabem por que eu sou chamado assim? Eu sou agricultor, como os senhores, tenho minhas criações, como os senhores, vivo do que planto e crio, assim como os senhores. Eu tenho o cheiro da terra impregnada em minha pele, essa terra fértil que cheira a esterco, que tem cheiro de merda. Eu assumo que tenho cheiro de merda porque todo agricultor digno tem cheiro de merda. Aliás, todos os candidatos têm cheiro de merda. A diferença é que, em nós, o cheiro está impregnado na pele. Nos outros candidatos, o cheiro está nas suas intenções, nas suas consciências. Há quanto tempo esses candidatos se revezam na administração da nossa cidade? Faz muito tempo e a cidade não sai da merda. Isso acontece porque a cidade é o reflexo da consciência do governante e, se a consciência cheira a merda, a cidade também cheira a merda. Está na hora de mudar. As pessoas ficaram impressionadas com a fala e com a forma de falar do João do Cheiro. Pararam de rir, começaram a refletir e prestaram atenção em seus projetos.
Desta vez, Joãozinho nada fez de errado, mas o Totó fez. Pouco antes dos outros candidatos chegarem, fez um cocozão na rampa de subida do palco. Os candidatos chegaram em seus carrões, de sorriso aberto, nariz empinado. Tão empinado que nem viram o cocô do Totó no chão e pisaram nele. João havia se retirado do palco e estava no meio das pessoas. Assim que chegaram no palco, uma pessoa lá da frente gritou:
• Nossa, que cheiro de merda!
*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.
