Luiz Carlos de Oliveira: Romantismo na Poesia
Caro leitor, convoco-o a viajar comigo para o início século XIX, quando surgiu o romantismo na literatura, mas abordarei aqui apenas sua influência na poesia brasileira.
Caracteriza-se esse período em três fases:
1. nacionalista
2. mal do século
3. questões sociais.
O primeiro item tem como seu precursor Gonçalves Dias, extremoso na sua demonstração de amor à pátria e a tudo que a integra, ou seja, natureza, índios, saudosismo.
Exemplo (apenas um trecho):
CANÇÃO DO EXÍLIO (de Gonçalves Dias)
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
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Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu´inda aviste as palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Note-se que o poeta, no romantismo, perfilhava rigorosamente as regras técnicas de forma e conteúdo da poesia, ou seja, métricas e rimas. No poema acima há rima que enfoca a saudade da pátria, externada pelo poeta, bem como versos em redondilha maior, já abordados anteriormente neste espaço.
O segundo item encerra uma poesia confessional, de melancolia, tédio, desejo de morte, medo do amor, onde a mulher era um ser inatingível, distante, similar a uma deusa, ou seja, como não era real, palpável, era perfeita. Como não podia tê-la nas mãos, o poeta sublimava em versos toda a sua frustração, sua dor.
Seus principais precursores: Alvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela.
Principalmente nessa fase, o escritor considerava-se um gênio, como se pode aquilatar por um desabafo de Manuel Antônio Álvares de Azevedo:
“Que fatalidade, meu pai, realmente que fatalidade para a nossa literatura,
perder a vida, na flor da idade, um de seus maiores gênios.”
A sua morte, antes que chegasse a completar o vigésimo primeiro aniversário, privou-nos, nas palavras de José Veríssimo, “daquele que seria talvez o máximo poeta brasileiro.” Seria… Talvez… O certo é que a morte jovem criou, como sempre, um mito. O mito do gênio doente e mórbido, que previra a própria morte em “Se eu morresse amanhã”:
“Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!”
A terceira fase principia a afastar-se desse sofrimento todo, denominado mal do século, para apegar-se à temática social e à defesa de ideias igualitárias, numa linguagem condoreira, grandiloquente, ou seja, próxima da oratória, cuja finalidade era convencer o leitor-ouvinte e conquistá-lo para a causa defendida.
Seu maior precursor foi, sem dúvida, Castro Alves, com os poemas “Navio Negreiro” e “Vozes da África”. Mas o poeta dessa última fase do romantismo também redigia versos sobre o amor, mas a mulher, ali, já era concebida de carne e osso, já se podia tocá-la e senti-la, como nos versos “Noite de Amor”, de Castro Alves:
“Seria um sonho aquela noite errante?…
Diz, minha amante!…
Foi real… Bem sei…
Ai! Não me negues…Diz-me a lua, o vento
Diz-me o tormento…
Que por ti penei!”
De meu turno, escrevi alguns poemas com traços do nosso romantismo, mormente pelo saudosismo que evocam, mas sem grandiloquência e voltados para o além…
Vejamos:
I – PÁSSARO CATIVO
Minha alma não almeja
As relíquias da vida
Ou as ilusões risonhas…
Tão somente deseja
Encontrar-te, querida,
No lugar onde sonhas!…
Onde estás, meu amor?
Pressinto que conversas,
Sobre os anseios teus,
Lá, num jardim em flor,
Entre cores diversas
E os augúrios dos céus!…
De meu turno, não vivo:
Nada pra mim descerra
A nossa realidade…
Sou pássaro cativo
Que deixaste na terra,
Já morto de saudade!
II – LEMBRANÇA
Bem ali, onde se ouve a voz do vento,
Nasceu um dia o nosso sentimento.
E sob aquela árvore sombreira,
Arrebatou-nos pela vida inteira!
Mas ninguém sabe como a vida escreve:
No nosso caso ela foi tão breve!
Você partiu ainda tão menina…
Ah, quanto a dor da perda nos ensina!
E hoje, sob o azul deste lugar,
Eu a pressinto nestes campos, no ar
E, sob aquela árvore sombreira,
Cúmplice deste nosso sentimento,
Bem ali, onde se ouve a voz do vento,
Vou adorá-la qual na vez primeira!
E agora, para encerrar, você que vive e sonha com um futuro promissor, fique com meu poema bem atual:
A VIDA
A vida é uma árvore
e há que se ter diretriz
para se chegar aos frutos,
mesmo porque,
quem não irriga seiva à raiz,
colherá, sem mais porquês,
a secura que a planta terá
a oferecer…
Abraços. Até a próxima.
*Luiz Carlos de Oliveira é advogado em Cotia e também poeta, autor do livro “Um pouco de mim, de ti, de nós…”, escreve mensalmente no Cotia Agora.
