Mãe Alcina vive! “Nós somos porque ela foi”

Por Mariana Marçal

Há alguns anos despertei para o caminho da espiritualidade e da ancestralidade. Com isso, descobri que o terreiro é o quilombo contemporâneo e o candomblé, para seus praticantes, é a força que reconstrói as histórias dissolvidas pela escravidão.

Mas conheci a Mãe Alcina muito antes, ainda jovem, sem saber nada sobre o candomblé.

Tudo em torno daquela alma bondosa me interessava. Mãe Alcina trouxe para a política da cidade discussões em torno da religião, da intolerância e do trabalho social, que sempre foi a base sólida de seu trabalho dentro e fora do terreiro. Em Cotia, através dela, o candomblé criou laço identitário, familiar e comunitário.

Falando nisso, retifico: conheci o Instituto Gira-sol e depois a Mãe Alcina. Porque foi também transformando vidas que ela adquiriu reconhecimento na cidade.

Desde então, aceitei convites para algumas feijoadas, eventos, homenagens em que carinhosamente eu beijava suas mãos sem entender o que estava fazendo. Mas o fazia.

E hoje, anos após a sua morte, e eu, iniciada no candomblé – e estudiosa não só da cultura africana, mas também da filosofia hindu – entendo perfeitamente a relação ancestral que tive com a Mãe Alcina. Ela já sabia o meu caminho enquanto que eu, nem imaginava.

Desde sempre acompanhei o trabalho do Baba Robinson à frente do Ilê Asè Aiye Sango Oju Ewa, Com amigos em comum e sempre lutando por uma cidade melhor para se viver, acompanhamos a vida um do outro e sempre observei muito de perto a luta para que a vida da Casa se mantivesse mesmo depois da passagem da Mãe.

A festa que sucedeu as obrigações de julho, mês de grande responsabilidade dos filhos e dos pais e mães da Casa, foi de grande emoção para todos. Quando falo filhos, falo todos os filhos.

Lá, as responsabilidades começam cedo, então, crianças, jovens e adultos comemoravam mais um odun de vida na Casa de Xangô em estado de profunda entrega.

E ver aquela família firme na fé e unida em torno do legado da Mãe Alcina, foi inesquecível. Uma mostra de que no candomblé não existem rupturas temporais em presente, passado e futuro. Tudo é continuidade. Em meio aos cânticos, algo lá gritava: “Nós somos porque ela foi”.

Mãe Alcina continua aqui, viva entre todos. Sua memória segue existindo e resistindo.
Seus filhos de santo e de sangue honram a sua história e o seu legado nesta vida terrena, que mudou de plano, mas segue viva.

E enquanto existir fé, enquanto a tradição oral do candomblé seguir firme, o Ilê continuará batendo cabeça pra ela, pra Mãe Alcina.
A Mãe Alcina de Cotia!

*Mariana Marçal é jornalista, professora de yoga e filha de ObàFoto principal: Laura Almeida