O ambiente influencia até o seu voto? Entrevista com o arquiteto Fernando Confiança
Por Beto Kodiak, Jornal Cotia Agora
Já percebeu que você se comporta de forma diferente dependendo do lugar onde está? Ninguém fala alto dentro de uma biblioteca. Mas será que essa mesma lógica vale para a eleição? Será que o jeito como vivemos o processo eleitoral hoje também empurra as pessoas para tratar o voto com menos importância?
Para conversar sobre isso, o Jornal Cotia Agora ouviu o arquiteto e urbanista Fernando Confiança, especialista em planejamento urbano e mobilidade, que também tem se dedicado a estudar como os espaços e os ambientes moldam o comportamento das pessoas no dia a dia da cidade.
Beto Kodiak: Fernando, você trabalha com planejamento de cidades. O que isso tem a ver com comportamento das pessoas na hora de votar?
Fernando Confiança: Tem tudo a ver. No meu trabalho, eu vejo isso todos os dias: o desenho de um espaço muda completamente como as pessoas agem nele. Uma praça bem cuidada, com bancos e sombra, faz as famílias ficarem e conversarem. Uma calçada estreita e sem conforto faz todo mundo passar correndo, sem nem olhar ao redor. O espaço “avisa” para a gente como devemos nos comportar ali, mesmo sem uma placa dizendo isso. E esse mesmo princípio explica muita coisa sobre o jeito como as pessoas tratam a eleição hoje.
Beto Kodiak: Como assim? Está dizendo que o “ambiente” da eleição também manda um recado?
Fernando Confiança: Exatamente. Pense na experiência de votar hoje: uma sala qualquer, uma fila apressada, uma máquina fria em cima da mesa, pouca explicação, pouco tempo para pensar. Esse conjunto todo passa uma mensagem silenciosa de que aquilo ali não tem muito peso. E as pessoas, sem perceber, agem de acordo com essa mensagem: deixam de ir votar, anulam o voto, votam em branco, ou em casos mais graves, ouvimos boatos de que aceitam vender o voto por qualquer trocado.
Beto Kodiak: Você acha então que o problema não é só falta de consciência do eleitor?
Fernando Confiança: Acredito que seja um problema maior do que isso. Claro que existe a questão da informação, da educação política. Mas se a gente só focar em “conscientizar” sem mudar o ambiente ao redor do voto, o esforço tende a não durar. É como pedir para alguém sussurrar dentro de uma festa barulhenta: o ambiente te empurra para o comportamento contrário o tempo todo.
Beto Kodiak: E como seria, na prática, um ambiente que devolvesse essa seriedade ao voto?
Fernando Confiança: Eu penso em algumas camadas. A primeira é o espaço físico da votação em si: pequenos gestos, como uma sinalização que lembre o eleitor da importância daquele momento, já ajudam a criar um clima diferente. A segunda é dar à pessoa um momento de pausa antes de votar, para ela lembrar por que está ali — pela escola do filho, pela rua esburacada, pelo posto de saúde sem médico. A terceira, que talvez seja a mais importante, é a forma como quem faz política se comunica.
Beto Kodiak: Pode explicar melhor esse último ponto?
Fernando Confiança: Quando um candidato fala “vote em mim que eu resolvo”, ele reforça a ideia de que o voto é uma troca comercial — o mesmo terreno onde nasce a “venda de voto por qualquer valor”. Já quando a conversa é sobre processo, sobre dados, sobre resultado e sobre prestação de contas, isso cria outro tipo de ambiente na cabeça do eleitor: o de que o voto é uma ferramenta de fiscalização, não um favor que se troca por algo.
Beto Kodiak: E o ambiente das redes sociais? Elas também entram nessa conta?
Fernando Confiança: Entram, e muito. Hoje boa parte da política nas redes é tratada como entretenimento ou como briga. Isso também é um “ambiente”, só que digital, e ele também educa o comportamento das pessoas. Um conteúdo que mostra dados concretos, uma obra que saiu do papel, uma conta pública que foi de fato fiscalizada, recria na tela do celular algo parecido com o efeito da biblioteca: a pessoa naturalmente baixa o tom e presta mais atenção, porque o próprio conteúdo pede seriedade.
Beto Kodiak: Para fechar, Fernando: você diria que mudar esse “ambiente” da eleição depende só dos candidatos?
Fernando Confiança: Não, e esse é um ponto importante. A biblioteca só funciona porque todo mundo ao redor também segue aquela regra silenciosa junto — é um efeito de grupo. Uma pessoa sozinha não sustenta um ambiente sério em volta do voto. Mas quando moradores de um bairro, associações de moradores e a imprensa local, como o próprio Jornal Cotia Agora, também passam a tratar a eleição como uma decisão coletiva séria, e não como fofoca ou negócio, esse comportamento se espalha. Cada um tem um pedaço dessa responsabilidade.
*Fernando Confiança é arquiteto e urbanista, com atuação associações filantrópicas, em planejamento de cidades e mobilidade urbana.
