Opinião: A Região Oeste precisa ampliar sua voz em Brasília

Por Fernando Confiança Arquiteto e Urbanista

Como arquiteto e urbanista especializado em mobilidade urbana, tenho percorrido os municípios da Região Oeste nos últimos anos: Vargem Grande Paulista, Embu das Artes, Ibiúna, Osasco, Carapicuíba, Barueri, Itapevi, Jandira, Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus e Cotia.

O que vejo não são apenas problemas genéricos, mas demandas estruturais muito específicas de cada cidade: ônibus lotados às 6h da manhã, postos de saúde sem medicamentos básicos e ruas sem asfalto em bairros consolidados há décadas.

O Desafio da Representação Proporcional
Nossa região abriga mais de 3,5 milhões de pessoas, mas enfrenta um desafio estrutural: a desproporção entre população e representação política efetiva em Brasília.
Reconheço parlamentares dedicados que atuam na região, como a deputada Adriana Ventura, que desde 2019 destina emendas através de editais públicos transparentes. A questão é: será que a magnitude dos nossos desafios está sendo adequadamente representada nas discussões nacionais sobre infraestrutura e desenvolvimento urbano?

Como Funciona o Financiamento Federal
Cada deputado federal pode destinar recursos através de emendas parlamentares que, desde 2013, são de execução obrigatória pelo Governo Federal.
• Metade desse valor deve ir para a saúde – isso está garantido pela Constituição Federal desde 2015, no artigo 166.
• O restante pode financiar projetos estruturantes: de saneamento básico a sistemas de transporte público, passando por assistência social, educação profissionalizante e proteção ambiental.
Mas aqui está o ponto crítico: Sem parlamentares que conheçam profundamente nossa realidade, como garantir que esses recursos atendam nossas necessidades mais urgentes? E mais: como cobrar efetividade na execução desses projetos?
A análise das demandas locais mostra a complexidade do desafio:
• Em Osasco, o problema da Mobilidade Urbana afeta diretamente a produtividade, convivendo com a urgência na Segurança Pública no centro.
• Em Carapicuíba, a necessidade de Infraestrutura Básica é crítica, especialmente após as enchentes que desalojaram centenas de famílias em 2024.
• Em Cotia, a demanda por Saneamento Básico em comunidades como Ressaca e Caputera, e a superlotação do transporte público na Raposo Tavares, mostram o abandono de bairros periféricos.
• Em municípios como Ibiúna, Vargem Grande Paulista e outros da região, os temas de Moradia Popular, Infraestrutura de Asfalto e Drenagem, e o Déficit de Saúde e Educação são transversais.

O Que Podemos Fazer Agora: Ações Cidadãs
A solução não está apenas no horizonte eleitoral. Há ações concretas que cidadãos e organizações podem tomar imediatamente:
1. Fiscalizar emendas existentes: Através do Portal da Transparência, verifique quais recursos foram destinados ao seu município e cobre a execução. A cobrança pública funciona.
2. Fortalecer conselhos municipais: Conselhos de saúde, educação e cidade são espaços legítimos para demandar que prefeitos busquem ativamente recursos federais.
3. Construir redes regionais: Associações de moradores de diferentes municípios podem se articular para apresentar demandas conjuntas, aumentando a pressão política.
4. Dialogar com representantes atuais: Antes de novas eleições, precisamos exigir mais dos parlamentares que já nos representam. Audiências públicas, prestação de contas e canais de comunicação devem ser cobrados agora.

A Questão Estrutural Permanece
Reconheço que essas ações, embora necessárias, esbarram em uma limitação estrutural: quando uma região deste tamanho tem representação desproporcional, a capacidade de articulação política fica limitada. Não se trata apenas de quantidade de parlamentares, mas de densidade de interlocução qualificada nas discussões federais sobre políticas públicas urbanas.
A força política se mede pela capacidade dos representantes de articularem políticas integradas, dialogarem com prefeitos e vereadores, e canalizarem demandas populares para políticas concretas. E isso exige presença consistente e conhecimento profundo da realidade local.

Uma Reflexão Necessária
Os desafios urbanos da Região Oeste são complexos e exigem gestão competente em todas as esferas. Mas vale a reflexão:
Quando olhamos para Brasília e para as discussões sobre o futuro das regiões metropolitanas brasileiras, vemos quem fala por nós com conhecimento de causa? Vemos quem está nas comissões técnicas defendendo nossos interesses com dados, argumentos e propostas concretas?
A resposta a essas perguntas define não apenas o presente, mas o futuro de 3,5 milhões de pessoas.

*Fernando Confiança é arquiteto e urbanista, especialista em Planejamento de Cidades, Gestão da Mobilidade Urbana, atuante em entidades da sociedade civil organizada e conselhos municipais de Cotia.