Quem viaja de bicicleta não faz parte do espaço. É o espaço. Por Manoel Lopes

Há pouco mais de dois anos, Jonas de Paula e Silva e Bruna Pionoski Cardoso saíram de São Mateus do Sul, no Paraná, para encarar a maior jornada de suas vidas com suas bicicletas, sem data marcada para voltar. Venderam o que tinham, ficaram só com o essencial e foram atrás de um sonho: cruzar as Américas de bicicleta, de Ushuaia, no extremo sul, ao Alasca, no extremo norte.

Mas quem vive o dia a dia do pedal, seja nas grandes expedições ou nos trajetos que fazemos pelas estradas de Cotia e região, sabe que a bicicleta nunca foi apenas um meio de transporte. Ela é uma lente através da qual enxergamos a vida.

Nesta semana, o casal chegou ao Alasca. Foram cerca de 27 mil quilômetros, 18 países, do extremo sul ao extremo norte das Américas até o outro extremo do mundo. Mas a história deles nunca foi sobre o destino. É sobre o que acontece no meio do caminho. E ninguém traduziu isso melhor do que o próprio Jonas ao sintetizar com rara sensibilidade o que significa viver no mundo sem as barreiras que a rotina moderna impõe, numa fala publicada no Instagram que merece ser lida em voz alta:

Quem viaja de bicicleta não faz parte do espaço. É o espaço.
Viajar de bicicleta te coloca dentro da natureza. Você passa a ser parte da natureza.
Viajar de bicicleta é lutar pelo seu próprio espaço. É lutar pelo direito de pertencer a esse espaço. Sentir o calor do sol e o frio, sentir o vento gelado, a chuva, estar presente, ser parte desse espaço.
Quando você viaja com carro, dentro de uma armadura de aço, num microclima, num micro espaço, num único ambiente onde tudo que está do lado de fora, está do lado de fora e você está do lado de dentro.
Viajar de bicicleta é diferente disso. É ser do lado de fora.
Viajar de bicicleta é a realidade da essência humana.

A reflexão do Jonas nos convida a pensar no modo como nos relacionamos com o ambiente ao nosso redor. No cotidiano acelerado das cidades, fomos acostumados a nos proteger do mundo exterior. O automóvel virou essa “armadura de aço” citada por ele: um casulo com ar-condicionado, vidros fechados e isolamento acústico, onde a paisagem se torna apenas um filme passando rápido pela janela.

Ler isso depois de acompanhar a trajetória do casal dá um peso ainda maior às palavras. Porque Jonas não está filosofando de longe: ele sentiu na pele cada uma delas. O calor do deserto, o vento gelado dos extremos, a chuva que não escolhe hora, o cansaço que vira paisagem. Ele sabe do que fala.

Pedalar é o exato oposto desse isolamento. Sobre o selim, não há filtro. Se chove, a água molha o corpo; se faz calor, o suor nos lembra a força empregada em cada pedalada; se o vento sopra forte contra o peito, é preciso paciência e resiliência para continuar avançando. Na bicicleta, nós deixamos de ser meros espectadores do caminho para nos tornarmos parte integrante do cenário.
“Viajar de bicicleta é a realidade da essência humana”, disse Jonas. Talvez seja isso: a bicicleta devolve à gente algo que a pressa tirou: a presença. A presença no próprio caminho, no próprio corpo, no próprio espaço.

A travessia de Jonas e Bruna de Ushuaia ao Alasca inspira não apenas pela marca geográfica imponente, mas pelo lembrete de que a vida acontece no “lado de fora”. Nem todos nós faremos uma expedição de milhares de quilômetros cruzando continentes, mas cada vez que colocamos o capacete e saímos para pedalar nas nossas estradas locais, experimentamos uma fração dessa mesma liberdade.

A bicicleta nos devolve o ritmo humano. Ela nos força a estar presentes em cada quilômetro, a sentir o aroma da terra úmida, a cumprimentar quem passa e a reconhecer o valor do nosso próprio esforço físico.

Ao celebrar a chegada ao Alasca, o casal do @foradatribo conclui um capítulo histórico, mas nos deixa uma mensagem permanente para a coluna Pedalar Mais: pedalar é, em sua forma mais pura, o resgate da nossa própria essência.
Bruna e Jonas estão juntos há 14 anos e escolheram viver a jornada em vez de esperar a aposentadoria. Estimavam dois anos para chegar ao Alasca e chegaram. Agora, do outro lado do continente, provam o que sempre disseram: ser feliz durante a jornada é mais importante do que o destino.
Que essa chegada sirva de convite. A cicloviagem não precisa ser uma travessia de continente; pode ser a volta no quarteirão, o pedal de domingo, o caminho até o trabalho. O que importa é se colocar do lado de fora. Sentir o sol, o vento, a chuva. Ser parte do espaço.
E você, quando vai pedalar?

*Manoel Lopes é autor de “Na Trilha dos Deuses”, livro que narra a jornada de um ciclista em busca da sustentabilidade, promovendo a conscientização ambiental e práticas mais responsáveis no cotidiano e do “Manual do Planejamento Cicloinclusivo – Diretrizes para as Cidades Sustentáveis e Resilientes”. Como escritor, palestrante e colunista, se destaca em Cotia, influenciando positivamente a comunidade e promovendo uma cidade mais sustentável e conectada com questões ambientais. Escreve mensalmente no Jornal Cotia Agora. @manoellopesgon

@foradatribo