Rafael Oliveira: Mother – In This Moment -Álbum mais ritualístico da banda
Mother (2020) é o disco mais ritualístico, feminino e provocador do In This Moment. Aqui a banda larga de vez a pele do metal tradicional e veste um manto mais ancestral, quase xamânico. Não é um álbum pra ouvir correndo ou como trilha de fundo. É pra sentar, apertar o play e deixar Maria Brink te puxar pelo colarinho da alma.
É arte, é performance, é manifesto. Tem metal? Tem! Mas tem silêncio, batida tribal, eletrônica, spoken word e muita simbologia. É o tipo de disco que divide opiniões — e isso é sempre um bom sinal.
Agora vamos fazer uma análise “Faixa a Faixa”:
The In-Between – A porta se abre não com um riff, mas com atmosfera sons etéreos, quase um sussurro do outro lado do véu é uma invocação! Você não entrou ainda no disco — você está sendo preparado. Experiência sensorial pura!
Legacy – Aqui o chão treme! Industrial, pesado, repetitivo de propósito, a música fala de herança, de marca deixada no mundo é hipnótica uma martelada no coco. Ótima pra ouvir alto e sentir o peito vibrar.
We Will Rock You – Sim, Queen meu amigo! Mas não espere estádio, palmas e festa, aqui o clássico vira um ritual pagão. Mais lento, mais denso, quase ameaçador. É respeito ao passado com coragem de subverter — tradição reinterpretada, do jeito certo.
Burn – Não, não é Deep Purple! Essa queima bonito. Groove sombrio, sensual, venenoso. Maria canta como quem dança ao redor da fogueira. É quente, é provocante, é aquela faixa que te pega no meio do disco e não solta mais.
Fly Like an Eagle – Outra releitura, agora do Steve Miller Band. O rock setentista vira algo místico, introspectivo, quase espiritual. A música flutua, é respiro, é contemplação. Fecha os olhos e vai.
The Purge – Aqui vem à limpeza. Peso, agressividade contida, batida quase tribal não é raiva gratuita — é expulsão de tudo que não presta. Daquelas músicas que funcionam como catarse. Sai mais leve depois.
Into Dust – Cover do Mazzy Star, e talvez o momento mais frágil do disco. Delicada, melancólica, quase nua. Maria mostra que não precisa gritar pra doer. Uma pausa linda e necessária.
Lay Me Down – Minimalista, sensorial, quase um mantra, a música se arrasta lentamente, como um ritual de entrega. Não é sobre refrão chiclete — é sobre clima. E funciona.
As Above So Below – O coração filosófico do álbum. Conceito antigo, alquímico, espiritual. A música cresce, envolve, te puxa pra dentro. Uma das faixas que melhor representam o espírito de Mother.
Born in Flames – Aqui o fogo volta com força. Mais direta, mais “rock”, mas sem perder o tom ritualístico. É renascimento, é força feminina, é levantar da cinza com postura e olhar firme.
God Is She – Fechamento perfeito. Polêmica? Claro. Poderosa? Mais ainda. A música é um hino lento, imponente, quase litúrgico. Não é provocação vazia — é afirmação. Fecha o disco como quem apaga as velas depois do ritual.
As Above So Below” é a faixa que condensa a alma do Mother. Não é a mais pesada, nem a mais “fácil”, mas é a mais verdadeira. Aquela que fica ecoando depois que o disco acaba.
Por quê?
- Conceito: o princípio ancestral — o que está em cima reflete o que está embaixo. Tradição pura, sabedoria velha como o mundo.
- Clima: ritualístico, hipnótico, cresce devagar e te engole sem pedir licença.
- Maria Brink: vocal mais xamânico do que cantora. Ela conduz, não performa.
- Experiência: ouvir essa faixa é atravessar o disco inteiro em poucos minutos.
- É a música que melhor representa o propósito do álbum, não só o som.
- Se Mother fosse um templo, “As Above So Below” seria o altar.
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- GHOST – BANDA SUECA E SEU PAPADO
- RAMMSTEIN ESQUISITICE ESCÂNDALO E EXAGEROS
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Mother não é um álbum fácil e ainda bem. Ele exige atenção, silêncio e disposição. É menos sobre riffs memoráveis e mais sobre experiência. É feminino sem pedir licença, espiritual sem ser religioso pesado sem ser óbvio.
Disco pra ouvir inteiro. Disco pra sentir. Disco que cresce com o tempo — como tudo que é verdadeiro.
Se o rock nasceu rebelde, aqui ele envelheceu sábio. E continua perigoso.
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