Raposo Tavares: Mais que uma estrada, um caminho para a cidade
Por Fernando Confiança
Nasci em Cotia há 55 anos. Cresci vendo a Raposo Tavares como a espinha dorsal da nossa região — e passei décadas vivenciando e estudando, tecnicamente, o que ela representa e o que pode se tornar. É a partir dessa dupla perspectiva — a do cidadão e a do especialista — que escrevo sobre a Nova Raposo e sobre algumas ideias que, embora bem-intencionadas, merecem análise criteriosa.
Quem vive ou transita por Cotia, Vargem Grande Paulista e São Roque sabe que a Raposo Tavares não é apenas asfalto; é o pulso que dita o ritmo das nossas vidas. O debate sobre a Nova Raposo e a chegada dos pedágios eletrônicos Free Flow gera dúvidas legítimas. É preciso olhar além da tarifa para entender o que está em jogo.
Não é por acaso que este debate se intensifica agora. No dia 2 de abril de 2026, Cotia celebrará seus 170 anos. Uma cidade com essa história e essa população merece muito mais do que emendas pontuais em sua infraestrutura: merece decisões à altura do seu tempo. A população cotiana, que há décadas convive com os gargalos diários da Raposo, aguarda com legítima expectativa atitudes concretas que melhorem de fato a qualidade de vida de quem aqui vive, trabalha e sonha.
O que o projeto prevê — e o que os dados dizem
Segundo a Secretaria de Parcerias em Investimentos do Estado de São Paulo, o contrato com a EcoRodovias — vencedora do leilão realizado em novembro de 2024 na B3 com lance de R$ 2,19 bilhões — abrange 92 km de vias e rodovias e prevê investimentos obrigatórios de R$ 7,9 bilhões ao longo de 30 anos de concessão, beneficiando dez municípios: Cotia, Barueri, Itapevi, Jandira, Osasco, Santana de Parnaíba, Araçariguama, São Paulo, Itapecerica da Serra e Embu das Artes.
A grande virada do projeto está na criação de vias marginais contínuas. Serão implementados 48 quilômetros de marginais contínuas ao longo de todo o trecho urbano entre São Paulo e Cotia, em ambos os sentidos da pista principal, permitindo que os munícipes circulem sem necessidade de pagamento de tarifa. Hoje, o trânsito trava porque o carro que vai ao interior divide o mesmo espaço com o morador que vai à padaria ou o ônibus que leva o trabalhador ao centro. Ao separar o fluxo, a pista expressa flui e a marginal organiza a cidade.
Para o usuário do transporte público, o avanço é concreto: a nova estrutura das marginais permitirá a construção de 46 novos pontos de ônibus, estrategicamente distribuídos ao longo da rodovia, além de faixas exclusivas para ônibus em parceria com os municípios servidos pelo lote. Isso significa previsibilidade real. O passageiro saberá exatamente quando chegará ao compromisso — com mais segurança e menos tempo perdido no “anda e para”.
Sobre a Faixa Exclusiva para Motocicletas: uma proposta equivocada para este contexto
Tenho ouvido sugestões de implantar faixas exclusivas para motocicletas na Raposo Tavares. Entendo a intenção — a segurança dos motociclistas é uma causa legítima e urgente. Mas, como especialista em mobilidade urbana, preciso ser direto: essa solução não é adequada para uma rodovia.
A chamada “Faixa Azul”, criada e testada pela Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET-SP), foi concebida como um espaço preferencial entre faixas de tráfego urbano, para que as motos possam transitar com mais disciplina e segurança sem alterar a dinâmica já existente da via. Ela opera em avenidas urbanas com velocidades regulamentadas, trânsito lento e geometria controlada — condições radicalmente diferentes das de uma rodovia.
Especialistas em planejamento urbano alertam que ferramentas consolidadas de melhoria da mobilidade e segurança incluem controle de velocidade, sinalização e fiscalização adequadas, infraestrutura qualificada e oferta de transporte coletivo e não motorizado. Em uma rodovia com velocidades elevadas e fluxo misto de veículos leves e pesados, a criação de uma faixa exclusiva para motos introduziria novos pontos de conflito, não os eliminaria.
Um estudo conduzido por pesquisadores da USP, UFC e Vital Strategies identificou que sete em cada dez motos circulam acima do limite de velocidade nas vias onde a Faixa Azul foi implantada — e a elevação da velocidade é apontada como o fator que mais preocupa, pois reduz o tempo de reação especialmente em cruzamentos e conversões. Agora, transponha esse risco para uma rodovia: o resultado seria o oposto do desejado.
A Faixa Azul tem o seu lugar — e esse lugar é dentro da cidade, em avenidas com as características técnicas corretas. Defendê-la em rodovias, sem embasamento técnico, é confundir boa vontade com boa engenharia.
Por que o pedágio? O argumento do orçamento público
Aqui entra um ponto fundamental, inclusive para quem não tem carro: o investimento social. A implantação dos pórticos do sistema Free Flow ocorrerá somente após a conclusão das obras, e as tarifas serão cobradas de forma justa, apenas por quilômetro percorrido, dos motoristas que acessarem as vias expressas. Quando a manutenção da rodovia é custeada pelo usuário que efetivamente a utiliza, os recursos dos impostos de todos — IPVA, ICMS — ficam livres no orçamento do Estado para o que é de todos.
Imagine esse recurso sendo redirecionado para:
- Saúde: Mais verba para hospitais regionais e UPAs.
- Segurança: Mais tecnologia e efetivo nas ruas dos nossos bairros.
- Educação: Reformas e merenda de qualidade em nossas escolas.
A rodovia que queremos
Uma rodovia moderna não serve apenas para “correr mais”. Ela serve para que o pai de família chegue cedo em casa, para que o ônibus não atrase, para que o imposto do cidadão seja aplicado onde a vida acontece: nos serviços públicos essenciais.
Como cotiano de raiz e técnico de formação, sei que o debate qualificado é o melhor instrumento que temos. Propostas precisam ser avaliadas pelo que as evidências mostram — não apenas pelo que a intuição sugere. A Nova Raposo tem virtudes e tem contradições que merecem escrutínio público. Mas confundir soluções urbanas com soluções rodoviárias não nos ajuda a avançar.
Cotia completa 170 anos em 2 de abril de 2026 com muito a exigir. A rodovia do nosso futuro precisa ser, acima de tudo, a rodovia da nossa qualidade de vida — construída sobre técnica, transparência e participação cidadã.

*Fernando Confiança é arquiteto e urbanista, especialista em Planejamento de Cidades e Gestão da Mobilidade Urbana, nascido em Cotia. É colunista do Jornal Cotia Agora.
