Coluna de Manoel Lopes – Pedalando no silêncio: o que a pandemia ensinou às bicicletas

Por Manoel Lopes

Nunca imaginei que veria uma cidade em silêncio. Um silêncio espesso, quase palpável, que se estendia pelas avenidas vazias como uma neblina. Era março de 2020, e o mundo todo parecia ter segurado o fôlego. Com as ruas desertas, os carros sumiram e com eles, o ronco constante que preenchia nossos dias sem que notássemos.

Foi então que ela voltou. A bicicleta.

Primeiro tímida, com um ou outro corajoso atravessando a cidade como quem redescobre um velho amigo. Depois, em grupos silenciosos, mascarados, desconfiados, mas pedalando. Nos bairros, nos centros, nas periferias. Como se todos tivessem lembrado, de repente, que era possível se mover sem motor. Que o corpo também serve para chegar.

O vírus nos trancou em casa, mas a bicicleta nos tirou da clausura. Era o ar no rosto quando ele ainda parecia perigoso. Era o espaço entre um e outro, quando o distanciamento virou lei. Era a liberdade possível num tempo de proibições.

E as cidades, antes surdas a esse modo de viver, tiveram que ouvir. De Paris a Bogotá, de Lisboa a São Paulo, surgiram ciclovias provisórias, pintadas às pressas, feitas de cones ou fitas zebradas. Improvisadas, mas simbólicas. Era o espaço urbano sendo redesenhado em tempo real, com tinta e esperança.

A pandemia nos forçou a parar. Mas também nos fez ver. Que a pressa nem sempre é progresso. Que o tempo pode ser contado em pedaladas. Que o transporte não precisa ser combustão. Que o ar pode ficar mais limpo. Que o número de acidentes de trânsito pode cair e que mais pessoas podem praticar atividades físicas, como forma de lidar com o confinamento.

Quando tudo parecia desabar, algumas coisas renasceram. O ciclismo, por exemplo, não só voltou como cresceu. Virou resposta, alternativa, respiro. E talvez, com sorte, tenha virado também um pouco de futuro.

Hoje, os carros voltaram. O barulho também. Mas muita gente continua ali, firme, no selim. Porque aprendeu, na marra, que duas rodas podem levar longe e com mais sentido.

O vírus foi invisível. Mas seu rastro deixou marcas visíveis no asfalto.

E uma delas tem forma de ciclovia.

*Manoel Lopes é autor de Na Trilha dos Deuses, livro que narra a jornada de um ciclista em busca da sustentabilidade, promovendo a conscientização ambiental e práticas mais responsáveis no cotidiano. Como escritor e colunista, se destaca em Cotia, influenciando positivamente a comunidade e promovendo uma cidade mais sustentável e conectada com questões ambientais. Escreve semanalmente no Jornal Cotia Agora.