Coluna de Rafael Oliveira e Fantastic Negrito – Have you lost your mind yet?
O blues contemporâneo que grita por liberdade
Have You Lost Your Mind Yet? é o quarto álbum de estúdio de Fantastic Negrito, lançado em 14 de agosto de 2020. O álbum foi premiado com o Grammy de “Best Contemporary Blues Album”.
Neste disco, ele investe numa fusão entre blues, soul, rock, funk e até influência de música negra contemporânea, com letras que falam de trauma, identidade, luta, saúde mental, relações humanas — tudo isso com uma produção que equilibra calor orgânico e arranjos modernos.
O título em si já provoca: “Você perdeu sua mente?” — questionamento que ecoa sobre o caos interno e externo, sobre como o mundo pressiona, sobre o que nos afeta por dentro. A experiência de ouvir é atravessada por tensão e catarse, por momentos de introspecção e explosão.
Faixa a faixa: a viagem auditiva
Vou guiar você por cada música, dizendo o que senti, o que ela transmite, onde ela acerta — como se estivéssemos escutando juntos.
• Chocolate Samurai (4:55)
• I’m So Happy I Cry (feat. Tank and the Bangas) (3:24)
• How Long? (4:16)
• Shigamabu Blues (0:55)
• Searching for Captain Save a Hoe (feat. E-40) (3:45)
• Your Sex Is Overrated (feat. Masa Kohama) (4:56)
• These Are My Friends (3:44)
• All Up in My Space (4:32)
• Justice in America (0:29)
• King Frustration (4:19)
• Platypus Dipster (3:07)
Agora, faixa por faixa:
Chocolate Samurai – Abre com groove firme, bateria presente, guitarra com personalidade. A letra fala de “liberdade” escondida, questiona identidades, impõe “temos que nos libertar das construções que nos colocam prisioneiros”.
É cenário ideal para mergulhar: você é chamado para entrar na playlist, para prestar atenção, para sentir. A voz tem força — equilibrada entre melodia e rugido. O instrumental carrega tensão, aumenta e diminui, joga com expectativa.
I’m So Happy I Cry (com Tank and the Bangas) – Uma faixa mais suave, tocante. Há colaboração com Tank & the Bangas e Tarriona “Tank” Ball.
Aqui, ele explora aquilo de felicidade agridoce: “Tenho tudo e ainda sinto que falta algo” — a ideia de que nem sempre o externo resolve o interno. É íntima, leve, vulnerável. Um momento de respirar no meio da tensão do disco.
How Long? – Aqui ele questiona dureza social: “Quanto tempo vamos tolerar essa violência, essas injustiças?” A letra é direta.
Musicalmente, há leve ascensão: mantém groove, mas pressiona nos momentos certos, para o ouvinte sentir peso no peito. Quando a letra atinge, o arranjo empurra com elegância.
Shigamabu Blues – Bem curta — menos de um minuto. Serve quase como interlúdio ou ponte.
Tem vibração ancestral, som místico, sugere espíritos, densidade. É como um suspiro, uma brecha, um momento de transição. Coloca você num estado de alerta para o que vem a seguir.
Searching for Captain Save a Hoe (com E-40) – Uma faixa com ritmo mais marcado, até com traços de rap / hip-hop pelo envolvimento de E-40.
A letra discute papéis, gênero, salvação pessoal — busca alguém que “salve” não no sentido messiânico, mas no sentido de puxar pra responsabilidade, confrontar ideias vitais. O arranjo é esperto: cada verso empurra, refrão mais fluido.
Your Sex Is Overrated (com Masa Kohama) – Aqui a conversa é sobre sexo como ferramenta de poder, manipulação. Mais ácido!
O som flui, não é agressão pura, mas crítica com ritmo. A voz dele junto com o solo de guitarra (ou participação de Masa Kohama) traz tensão sexual, ambiguidade — o matiz de “sexos exagerados” como ideal forçado.
These Are My Friends – Momento de proximidade. Fala sobre amizade, sobre pessoas que nos cercam, que nos ajudam a carregar, mesmo com falhas.
Musicalmente, mais cálida, melódica, harmonias que confortam. É como se o disco piscasse luz para você: “não está sozinho”. Um momento de abraço, antes de voltar pra tempestade.
All Up in My Space – Aqui a tensão relacional aparece: invasão de espaço emocional, conflitos íntimos. A letra expressa frustração com relações que ferem ou sufocam.
No som, arranjos ajustam-se para apoiar essa sensação: elementos harmônicos contrastando com bateria marcante. O ouvinte sente desconforto e reconhecimento ao mesmo tempo.
Justice in America – Muito curta — só 29 segundos.
É quase uma declaração, tipo um canto de protesto condensado. Impressiona mais pelo que não precisa dizer do que pelo que diz. Um alarme simbólico no meio do disco.
King Frustration – Um dos momentos mais densos. A letra fala de frustração profunda: urbana, social, familiar. Traz histórias — dependência, falta de oportunidade — e pinta rostos reais.
Musicalmente, solo e organ contrastam com linhas graves, alternâncias emocionais. É faixa que pega o coração, que dói, que provoca “como chegamos até aqui?”.
Platypus Dipster – Encerramento — o disco termina com essa faixa. A letra fala de pressão da mídia, expectativas, como somos moldados por olhares externos.
Musicalmente, é tensão sustentada, talvez com momentos de soltura — mas ainda com alerta, com inquietação. Não é final “feliz e resolvido”, mas um ponto de reflexão para você levantar depois e caminhar com isso.
Mas se for pra escolher a melhor faixa, aquela que representa o espírito do álbum e mais marcou público e crítica, o trono vai pra “Chocolate Samurai” para fazer parte da setlist do Programa Garimpo da Rádio Meteleco – https://meteleco.net – semanalmente exibido às 16hs de segundas as sextas-feiras.
Por que ela é a melhor?
• É a abertura do disco — e já chega te puxando pelos ombros: groove nervoso, riffs cortantes, baixo pulsando e um refrão que parece um sermão funk-blues.
• Fantastic Negrito canta com fúria e alma, misturando funk de rua, soul e blues moderno.
• A letra é uma provocação genial: fala sobre identidade, liberdade e como a sociedade tenta te encaixotar — e ele responde com ironia e coragem.
• É uma faixa que resume o disco inteiro: intensidade, crítica social e espiritualidade em uma só explosão sonora.
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A experiência completa
• Imersão emocional: você vai passar por altos e baixos internos. Momentos de leveza, momentos de dor, momentos de revolta.
• Questionamento constante: “que parte de mim está quebrada?”, “que parte do mundo me afeta?”, “quem sou eu nessa rede de vozes?”
• Espaços para respirar: o álbum não é só ataque. Tem pausas, interlúdios, momentos de esmero — você tem tempo pra sentir.
• Identificação e catarse: se você já sofreu, já se sentiu sufocado, já viu injustiça, vai encontrar ecos desse álbum na sua vida — e isso cura.
• Consciência racial/social: sem ser panfletário exagerado, ele denuncia, chama à responsabilidade. O disco conecta o pessoal ao coletivo.
• Resistência sonora: o som nunca é frouxo. Mesmo nos momentos suaves, há estrutura firme. O disco impõe respeito — é blues imediato, visceral, contemporâneo.
• Se eu fosse apontar qual faixa se destaca, acho que “Chocolate Samurai” é aquela que provoca o ponto de partida, o “tom” do disco inteiro. Ela introduz a crise interna externa que se joga nas faixas seguintes.
• Mas “King Frustration” e “These Are My Friends” também são mágicas — diálogo entre dor social e laços pessoais.
• Esse disco é daqueles que você escuta inteiro — sequencialmente — pra pegar as nuances, pra sentir como um tema atravessa de “Chocolate Samurai” até “Platypus Dipster”. Ouvir isolado vai dar belos trechos, mas a soma traz dimensão maior.
Instagram: @rafael.s.deoliveira.9

