Conto de Antônio dos Santos Camargo: Zé Brocha
Um pequeno exemplo de como um simples deslize ou um simples mal-entendido pode apagar todo um passado de virtudes de uma pessoa ou manchar a beleza de uma obra.
ZÉ BROXA – CONTO
Há muito tempo, quando esta cidade já era formada por um centro e uma dispersão de bairros, interligados por ruas, a maioria de terra batida e a pintura das paredes era de caiação, aquela cal solúvel em água que pode ser pigmentada e executada com brocha, um pincel grande e rústico, morava, em um desses bairros, um rapaz cujo apelido era Zé Broxa. Ele gostava do apelido porque estava associado à sua profissão, pintor de parede, e isso induzia as pessoas a se lembrar dele quando precisavam de um serviço. Zé Broxa era uma pessoa muito simples, boa gente, solidário, caseiro e muito trabalhador. Ele era casado com Jurema, mulher forte, esperta e enérgica e tinham quatro filhos. Tinham uma casinha própria, simples, mas confortável, e formavam uma bela família. O tempo foi passando, os filhos foram crescendo, a cidade foi crescendo, os bairros foram se estendendo, posteriormente foram se dividindo e surgiram as tintas que são usadas hoje, uma dispersão de cargas minerais e com resina sintética, mais resistentes, mais brilhantes, mais modernas. A broxa foi substituída por outras ferramentas adequadas, mas seu apelido não, continuava sendo Zé Broxa. Apesar de sua simplicidade, ele conseguiu acompanhar as mudanças e se adaptar à nova tecnologia e continuar trabalhando.
Um belo dia, no centro da cidade, chegou um homem de fora, chamado Zé Leôncio, e abriu uma loja de tintas. Uma loja grande, bem surtida, com vários funcionários. Assim que abriu, começou a fazer propaganda da loja, com cartazes e placas espalhadas pela cidade e a fazer doações de tinta para algumas instituições, com o intuito de mostrar a qualidade de seus produtos e levantar clientes. Tudo normal, Zé Leôncio é muito esperto e bom comerciante. Como era um cara boa pinta e com modos refinados, logo começou chamar a atenção das mulheres da cidade. Uma delas era a Doínha, que tinha um salão de beleza do outro lado da rua, um pouco afastado da loja. O apelido dela era Doínha Assanhada, por causa de suas roupas, um pouco ousadas para a época e por causa de seus modos, um pouco fora de padrão. Como os dois passavam por uma fase de muito trabalho, o salão da Doínha sempre cheio e o Zé Leôncio correndo para arrumar clientes, o previsível encontro deles demorou um pouco, mas aconteceu. Também, previsivelmente, depois de muita conversa e muita bebida, após o encontro foram para o motel. Só que na hora do vamos ver, Zé Leôncio não satisfez a expectativa, deu uma bambeada. Os dois ficaram muito chateados e voltaram para suas casas decepcionados. A Doínha, apesar de assanhada, não era fofoqueira e era respeitosa, ela não ia comentar nada sobre o que tinha acontecido. Já o Zé Leôncio ficou preocupado com sua imagem. “E se ela comentar com alguém?” – imaginando o que as pessoas poderiam pensar. Muito preocupado, com esse pensamento martelando sua cabeça, decidiu fazer uma coisa para salvar sua imagem, a pior possível. Começou a espalhar para os clientes e funcionários que a Doínha não era nada do que se pensava dela, era gorda, cheia de estrias, rugas e parecia uma geladeira. Fofoca corre a solto e logo a Doínha ficou sabendo desses comentários. Assim que soube, largou o salão e correu para a loja de tintas tirar satisfação. A loja estava cheia de clientes, mas ela fez questão de falar alto para todos ouvirem: “Que negócio é esse de você sair por aí difamando a minha imagem? Quem lhe deu esse direito?” Cinicamente, o Zé Leôncio retrucou: “Eu só disse a verdade”. “
Verdade? Você disse o que aconteceu, realmente, lá no motel? Você disse que foi você que negou fogo, seu Zé brocha de uma figa? É isso mesmo que vocês ouviram, esse cara não passa de um Zé Brocha. Zé Leôncio não esperava aquela reação e ficou descontrolado. Sem saber o que fazer, foi para cima dela e deu-lhe um empurrão. Ela bateu a cabeça no balcão e caiu no chão. Doínha ficou tão revoltada que saiu de lá e foi direto para a delegacia fazer uma queixa. O delegado não estava, estavam apenas alguns policiais despreparados. Ela contou aos policiais o que tinha acontecido.
O policial perguntou quem a tinha agredido e ela, muito nervosa, não se lembrou do nome dele e nem que era o dono da loja de tintas. Disse que era um tal de Zé Brocha da vida. “Zé Broxa?” – disse outro policial – “Eu conheço o Zé Broxa, ele é lá do meu bairro”. “Então vamos lá buscar o cidadão” – disse outro policial querendo mostrar serviço. Chegaram ao bairro procuraram pelo Zé Broxa e o encontraram trabalhando como voluntário na pintura da igreja. Estava todo contente, juntamente com seus amigos. Os policiais chegaram e deram voz de prisão ao Zé Broxa. Ele perguntou o que tinha feito e o padre também. “Ele foi com a Doínha Assanhada para o motel e bateu nela” – resumiu o policial sem saber direito o que falava. O Zé ainda falou que nada tinha feito, mas não adiantou, foi levado para a delegacia. O padre ficou indignado. “Que cara de pau! Traiu a mulher, agrediu a amante e veio aqui pintar a igreja, uma casa sagrada. Deus que me perdoe, mas tem que ser preso mesmo. Tem que pagar pelo que fez.”
Não demorou e a notícia chegou ao ouvido da Jurema, esposa do Zé Broxa. Ela não perdeu tempo, tomou um ônibus e foi até a delegacia. Identificou-se e foi conversar com o marido. Zé Broxa falou para ela que não sabia por que estava preso. Disse que nunca tinha ouvido falar da Doínha Assanhada e a única vez que tinha ido ao motel tinha sido para broxar. Jurema perguntou ao policial quem tinha feito a queixa e ele disse o nome dela e onde ficava o salão. Jurema foi para lá. Logo que chegou, disse que era a mulher do Zé Broxa e queria falar com a Doínha. Uma das funcionárias disse que Doínha não estava, mas poderia esperar, ela não ia demorar. Enquanto esperava, uma das funcionárias perguntou: “Então a senhora é a mulher do Zé Broxa! Ele brocha mesmo ou é só apelido? “Broxa, sim, e broxa bastante” – respondeu Jurema. Elas não contiveram a risada. “Por que vocês estão rindo?” – perguntou Jurema. “Por nada, ele broxa com senhora também? – disse outra funcionária. “Claro, as vezes é preciso” – disse Jurema. “A senhora não fica incomodada de seu marido broxar com a senhora? – Perguntou uma cliente.” “De jeito nenhum, nóis é muito unido”. Todos riam, quando Doínha chegou. “Ela é mulher do Zé Brocha e quer falar com você” – disse a funcionária. “Desculpe -disse Doínha – eu não sabia que ele é casado.” “Não tem pobrema, eu só quero fazer umas perguntinhas.
Jurema não sabia formular perguntas mais específicas. Na sua simplicidade, perguntava o que lhe vinha na cabeça. “Quando que você saiu com meu marido e a que horas?” “Anteontem, das 6 da tarde às 10 da noite.” “Ah, tá, você viu a cor da cueca do meu marido?” “Vi, era amarela”. As funcionárias não paravam de rir. “Você viu o meu marido na cadeia?” “Não, pretendia ir lá agora”. “Então vamo já tirar o meu marido de lá, prenderam a pessoa errada. Nesse dia meu marido tava em casa e ele não tem cueca amarela. E vocês que tão dando risada, saiba que broxar prá nóis é pintar, é trabaiá duro, viu suas mar-criadas!
A chegada delas à delegacia coincidiu com a chegada do delegado. Após relatar o que tinha acontecido e constatar que não era a mesma pessoa, Doínha ficou toda desconcertada e não sabia como se desculpar. O delegado ao mesmo tempo que repreendia os policiais, tentava consolar a Doínha. O Zé Broxa e a Jurema só queriam sair logo de lá. Assim que foram liberados saíram rapidinho da delegacia.
Quando voltavam para casa, passaram em frente à igreja. As pessoas estavam comemorando o término da pintura. Faziam orações de agradecimento e olhavam, com rabo de olho, o casal passando em frente. Zé Broxa quis ir até eles e explicar o que tinha acontecido, mas Jurema não deixou, puxou o marido pelo braço e disse que depois eles resolveriam aquilo. Tarde da noite, Jurema acordou o marido e disse que estava na hora de resolverem aquilo e foram para a igreja.
No dia seguinte, logo cedo, o padre estava apreciando a pintura da igreja e fazendo orações de agradecimento quando viu na parede lateral, em baixo, a seguinte frase:
PINTURA PATROCINADA POR ZÉ BROCHA. O padre ficou revoltado novamente. Que petulância desse cara, depois de tudo que fez escreve que patrocinou a pintura! Chamou outras pessoas e foram até a casa do Zé Broxa. Assim que Zé Broxa saiu para atendê-los, o padre foi dizendo: “Você não tem vergonha? Trai sua mulher, agride a amante, vai preso e escreve que patrocinou a pintura da igreja, por que você fez isso?” “Mas eu não fiz nada
disso, foi tudo engano.” “Como engano? Está escrito lá: Pintura patrocinada por Zé Brocha”. “Me diga uma coisa: Broxa tá escrito com x ou com ch?” – perguntou Zé Broxa. “Com ch, eu vi bem” – disse um acompanhante. “Bão, então é o Zé Brocha lá do centro, o dono da loja de tintas. Foi ele que doou todas as tintas para a igreja. O mesmo que foi pro motel com a tal de Doínha Assanhada e lá negou fogo. Depois bateu nela e fez eu ir preso no lugar dele. Aquele homem é marvado, mas o senhor tem que falar com ele, eu não tenho nada com isso”. Dentro da casa Jurema espiava e ria, toda orgulhosa do marido. Zé Broxa encarou todos e disse: “Pode deixar que depois eu arrumo a pintura e eu também perdoo vocês. Agora vocês dão licença porque eu preciso broxar.” Entrou na casa e deixou todos lá fora de boca aberta.
*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.
