Coluna de Rafael Oliveira: Bob Dylan e o melancólico Rough and Rowdy Ways

Lançado em junho de 2020, “Rough and Rowdy Ways” é o 39º álbum de estúdio de “Bob Dylan” e marca o retorno do lendário cantor e compositor com um trabalho autoral após um intervalo de oito anos. Em um dos lançamentos mais esperados da década, Dylan entrega uma obra intimista, reflexiva e profunda, que mistura sua inconfundível habilidade narrativa com uma interpretação melancólica sobre a cultura, a história e a espiritualidade. Este álbum mostra Dylan em um momento maduro, observador e filosófico, onde reflete sobre seu papel na música e no mundo, com um toque de misticismo e ironia.

O título, “Rough and Rowdy Ways”, já sugere o espírito do disco: áspero e ousado, mas, ao mesmo tempo, introspectivo. Dylan revisita temas universais como a morte, o amor, a violência e a moralidade, além de prestar homenagens a ícones culturais e figuras históricas. Musicalmente, o álbum é imbuído de blues, folk e jazz, criando uma atmosfera atemporal, que envolve o ouvinte em uma sonoridade vintage e, ao mesmo tempo, carregada de ressonância contemporânea.

Contain Multitudes o álbum abre com uma faixa introspectiva, onde Dylan faz uma espécie de autorretrato poético e fragmentado. O título é uma referência ao poema “Song of Myself” de Walt Whitman, sugerindo uma complexidade de identidades e ideias. Musicalmente, a faixa é sutil, com um arranjo simples que destaca a voz de Dylan. Ele menciona ícones como Edgar Allan Poe, Anne Frank e Indiana Jones, em um tom quase confessional. É uma abertura suave e instigante que prepara o ouvinte para a jornada multifacetada do álbum.

False Prophet com um ritmo de blues pesado e riffs marcantes, “False Prophet” traz Dylan em uma postura desafiadora, quase ameaçadora. Ele se autoproclama um “falso profeta”, mas desafia qualquer um a questionar sua sabedoria. A faixa possui um arranjo direto e sujo, que lembra o blues tradicional, com guitarras e um baixo pulsante. A voz rouca e autoritária de Dylan confere um ar de autenticidade à canção, tornando-a um dos pontos altos do álbum.

My Own Version of You nesta faixa, Dylan assume o papel de um criador de seres humanos, como um Frankenstein moderno, reimaginando figuras históricas e personagens fictícios para criar “sua própria versão” das pessoas. A letra é cheia de alusões e referências culturais, mesclando humor e horror. A música é atmosférica, com um acompanhamento de guitarra sutil e um ritmo que parece se mover na escuridão, como se estivesse desenhando uma figura sombria. É uma faixa intrigante e sombria, com um tom cinematográfico.

I’ve Made Up My Mind to Give Myself to You esta balada romântica e melancólica traz um lado mais suave e vulnerável de Dylan. Ele canta sobre a entrega ao amor com uma serenidade quase resignada. O arranjo, com um toque de jazz suave e vocais quase sussurrados, cria uma atmosfera íntima. A letra é repleta de imagens poéticas e mostra um Dylan contemplativo e romântico, enquanto a melodia suave se desenrola de maneira encantadora, criando um dos momentos mais belos e emotivos do álbum.

Black Rider é uma canção sombria e carregada de tensão, onde Dylan parece conversar com a figura da Morte, representada pelo “Cavaleiro Negro”. Com uma melodia minimalista e uma estrutura quase de poema falado, a música é inquietante. O tom enigmático e o arranjo sutil, com acordes de guitarra espaçados, criam uma atmosfera de suspense. É uma faixa que explora temas de moralidade e aceitação, deixando o ouvinte com uma sensação de reflexão profunda.

Goodbye Jimmy Reed esta faixa é um tributo ao músico de blues Jimmy Reed, um dos grandes ícones do gênero. Dylan presta homenagem ao estilo de Reed com uma canção vibrante e enérgica, marcada por riffs de guitarra e uma batida acelerada. Liricamente, a faixa explora temas de rebeldia e autenticidade, refletindo sobre o legado do blues. A energia contagiante da música contrasta com as faixas mais melancólicas, criando um momento de celebração no álbum.

Mother of Muses é uma canção poética e lírica, onde Dylan canta sobre inspiração e criatividade, pedindo orientação à “mãe das musas”. A faixa é suave e melancólica, com uma melodia que evoca uma oração ou um hino. Liricamente, Dylan presta homenagem a figuras como Elvis Presley e Martin Luther King Jr., refletindo sobre o papel dos artistas e líderes culturais na sociedade. É uma canção contemplativa, que explora o processo criativo e o legado da arte.

Crossing the Rubicon inspirada na famosa expressão sobre a travessia de Júlio César pelo rio Rubicão, que marcou uma decisão irreversível, esta faixa é intensa e carregada de símbolos. Com um ritmo de blues forte e riffs de guitarra, a música fala sobre decisões e momentos de transformação. Dylan explora temas de destino, escolhas e consequências, em uma performance visceral. A faixa tem um tom de desafio, como se fosse um ultimato ao ouvinte, deixando uma sensação de urgência.

Key West (Philosopher Pirate) é uma das faixas mais longas e atmosféricas do álbum, uma balada que evoca imagens de um paraíso perdido e de um Dylan como um “pirata filósofo”. A canção fala sobre Key West como um lugar de refúgio e contemplação. A música é introspectiva, com uma melodia relaxante e uma letra repleta de nostalgia e anseio por paz. É um momento de serenidade no álbum, onde Dylan reflete sobre temas como mortalidade e transcendência.

Encerrando o álbum, “Murder Most Foul” é uma faixa épica de 17 minutos sobre o assassinato do presidente John F. Kennedy. Dylan explora o impacto cultural e emocional do evento, com referências a músicas, ícones e figuras da cultura pop americana. A canção é quase uma narrativa histórica, com Dylan guiando o ouvinte através de décadas de desilusão e transformação cultural. Musicalmente, a faixa é minimalista, permitindo que as letras densas e as reflexões de Dylan ocupem o centro das atenções. É um encerramento poderoso e contemplativo para o álbum, destacando o lado narrativo de Dylan.

“Murder Most Foul” é especial não só pela sua duração, mas também pela profundidade narrativa, onde Dylan faz referência a uma vasta lista de ícones culturais, canções e figuras históricas, construindo um retrato da desilusão americana ao longo das décadas. A música é quase como uma peça de poesia falada, onde Dylan entrega uma performance reflexiva, melancólica e cheia de simbolismo. Eu escolho para fazer parte da setlist do Programa Garimpo da Rádio Meteleco – https://meteleco.net – semanalmente exibido às 16hs de segundas as sextas-feiras.

“Rough and Rowdy Ways” é uma obra-prima melancólica e introspectiva, que reflete a maturidade de Bob Dylan como artista e pensador. Cada faixa traz uma nova camada de profundidade e significado, onde ele mescla blues, folk e poesia de maneira única. O álbum é um convite para o ouvinte refletir sobre temas complexos como mortalidade, história, arte e amor, enquanto Dylan se apresenta tanto como observador quanto como protagonista desses temas.

Musicalmente, o álbum é sutil, com arranjos minimalistas que permitem que as letras e a voz de Dylan brilhem. “Rough and Rowdy Ways” é uma experiência densa e atemporal, um testemunho da relevância contínua de Dylan na música e na cultura. Para fãs de longa data e novos ouvintes, é uma oportunidade de mergulhar na mente de um dos maiores poetas da música, em um dos trabalhos mais profundos e evocativos de sua carreira.

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*Rafael S. de Oliveira – Mórmon/SUD – Com oficio de Elder, Diretor de Assuntos Públicos e Especialista de Bem Estar, membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Vice-Presidente – O Observatório: Associação de Controle Social e Políticas Públicas da Zona Oeste de SP (mandato 2020-2023). Técnico em Políticas Públicas pelo PSDB (Partido da Social Democracia do Brasil), Engenheiro de Produção e ex-gestor por 3 grandes empresas (Luft Logistics, IGO SP e TCI BPO). Apresentador e Produtor pela Rádio Meteleco.Net (Programa Garimpo) e Colunista no Jornal Cotia Agora (Caderno de Música, Discos, Experiencias e Cultura).