Artigo de Juarez Alvarenga: A fantasia na hora do sol

A noite começa perder sua escuridão. O pescador abre os olhos, enxergando ao seu redor, uma profissão de desafios. Levanta sem muita arma, mas com muita coragem.

Lutar, para sobreviver é o seu lema. Viver é apenas uma fábrica de matéria prima, produzida na sua pura, inocente e inteligente mente.

O sol, agora aparece e a escuridão tímida, se escondeu, para mais tarde voltar a expor.

O pescador, de pés descalços, camisa aberta, vai até ao barco enfrentando, por mais uma vez, o tenebroso mar. Joga as redes e as esperanças.

Pega desilusões e fantasias. Insiste e nada consegue. De volta a praia. começa a pensar em coisas que nunca havia pensado antes.
Enquanto as enzimas destroem o restante do pão da manhã, ele catalisa na sua rica mente, fantasias e interrogações provocadas pela própria realidade.

Começa a olhar na superfície do oceano fazenndo perguntas a si mesmo. Porque este monstruoso mar existe tantos peixes e eu volto de barco vazio? Porque o homem dividiu o mar e os peixes não obedecem as limitações desta divisão? Porque estes mesmos peixes, não ficam na superfície, pois assim seria muito mais fácil pegá-los?

Chegou em terra firme, deixando dentro do mar os pensamentos. As crianças o rodeiam, reclamando dos peixes que não vieram. Sua mulher lamenta, mais um dia de podridão.

E novamente, a escuridão que havia acovardado, agigantou e apareceu. O pescador cansado, dorme como se estivesse morto. Mas, o galo anuncia que a claridade está de volta.

Agora, as coisas mudaram. As redes estão cheias de peixes e soluções. E, o velho pescador, tornou-se novo. Ao encontrar com sua mulher, foi logo dizendo: esta vida só se consegue quando parte. Porém, é partindo que conseguimos voltar. É conhecendo o começo, que atingimos o fim. É chegando no fim, que retornamos no princípio. É sonhando, na hora do sol, que chegamos na novela das seis vitoriosos.

O importante é sabermos, que somos possuidores de uma dupla personalidade, como a do pescador. Que enfrenta o sol, para brincar com a lua. Que procuramos os peixes, para sobreviver, mas só realizamos na fantasia.

É melhor termos uma única personalidade. A do sol (realidade) nos é vestida. A da lua (fantasia), é totalmente despida. A primeira, nos é imposta a segunda, nos é desejada.

Ainda bem que existe um final de semana, para tirarmos a roupa que nos encomoda e jogando, nas madrugadas. Voltando a vestir, somente na segunda-feira.

*Por Juarez Alvarenga – Advogado e escritor de Coqueiral (MG). – [email protected]