Coluna de Antônio dos Santos Camargo: Grito

Em meio ao movimento de pessoas e o barulho de rotina, ouve-se, de repente, um grito que sobressai a todas as vozes. Parece um gemido alto misturado a um assobio. É um som estranho, incompreensível e assustador. Logo um corpo convulso, caído no chão, é localizado e cercado por
curiosos e assustados. “Calma, é uma convulsão!” Felizmente, há sempre alguém que conhece o problema. Em pouco tempo tudo se restabelece. No ar fica o dilema do grito: Foi um alerta? Foi um aviso? Foi um pedido de socorro? No momento ninguém tem explicação. Nem mesmo a vítima, após a recuperação, consegue explicar. Quando o grito, partiu ela já havia perdido os sentidos. É claro que os médicos têm uma explicação científica e categórica para o fenômeno, mas o poeta também tem a sua versão para seu grito.

GRITO
A janela fechou-se antes do grito…
Não houve tempo para espanto,
Não houve instinto para o pranto,
Só a vida sugada para um mundo maldito.

A janela fechou-se antes do grito…
Não vi o horror que, dizem, causara,
Não vi o desespero que, dizem, tornara,
Minha vida vagava num escuro infinito.

A janela fechou-se antes do grito…
No chão, o corpo convulso e sem luz
Revela, nos olhos, o pavor que produz
A agonia da vida no tempo proscrito.

Se eu pudesse diria aos olhares aflitos
Que foi um passo em falso no baile da vida,
A exibição teatral de uma peça falida
Ou um passo macabro na cena de um rito.

Mas ao protagonista demente, num palco restrito,
Só resta esperar a janela abrir-se, de repente,
E, em ritmo igual, a luz retornar vivente
Pelo misterioso caminho do escape do grito.

*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.