Amor, Bicicleta e o Caminho da Fé – por Manoel Lopes
Pedalar mais de 300 quilômetros cortando as serras entre Águas da Prata e a Basílica Nacional de Aparecida é uma façanha que exige resistência física, força mental e alma. Mas encarar essa jornada a dois transforma o desafio em algo ainda maior: um verdadeiro testemunho de cumplicidade, companheirismo e superação compartilhada.
Essa é a história de Carlos Eduardo de Lucca, o Du, e Denize Landim, a Dê, integrantes do tradicional grupo Geleias Bikers, de Cotia. Pelo quarto ano consecutivo, eles percorreram as estradas da Serra da Mantiqueira e transformaram o sonho de completar o Caminho da Fé em uma conquista inesquecível.
Quem vê o sorriso estampado e a emoção do casal ao cruzar a linha de chegada na praça do Santuário Nacional nem sempre imagina a bagagem de suor e disciplina acumulada ao longo dos meses. Para Du e Dê, a preparação não começou em Águas da Prata, mas sim no quintal de casa, o laboratório ideal para enfrentar as altimetrias severas do percurso.
Conhecido pelos treinos diários e intensos pelas estradas de terra e trilhas técnicas da região do Morro Grande e do interior de Cotia, o casal enfrentou sol, frio, chuva, barro e subidas íngremes para desenvolver a resistência física e psicológica necessária. A determinação de ambos no dia a dia traduziu-se em ritmo, equilíbrio e, acima de tudo, respeito ao tempo e aos limites um do outro.
No ciclismo de longa distância, a verdadeira força de um casal não está em quem pedala mais rápido ou quem atinge maior velocidade nas descidas, mas sim na capacidade de dizer “estou do seu lado” quando as pernas pesam, o pulmão queima e a subida parece não ter fim.
O percurso principal do Caminho da Fé é rigoroso: são mais de 8 mil metros de ganho acumulado de elevação, uma exigência comparável à de subir o Monte Everest a partir do nível do mar, mas sobre o selim de uma bicicleta.
Ao deixar o interior paulista e entrar em Minas Gerais, Du e Dê encararam algumas das subidas mais desafiadoras do trajeto. Na Serra do Pântano, a forte inclinação exigiu cadência e concentração. Na Serra do Caçador, o terreno pedregoso cobrou técnica e atenção. Já o trecho da Luminosa, um dos mais conhecidos e temidos do cicloturismo brasileiro, levou ao limite as reservas de energia.
Entre o ruído dos pneus sobre o cascalho, a poeira levantada pelo vento e as descidas técnicas que exigiam firmeza nos freios, o casal compartilhou cada etapa. Nas paradas em vilas e pousadas mineiras, o café passado na hora, o queijo fresco e a hospitalidade dos moradores ajudavam a renovar o ânimo para seguir viagem.
A descida final em direção ao Vale do Paraíba traz consigo uma atmosfera quase mágica. A paisagem começou a anunciar o fim da jornada quando as torres da Basílica de Aparecida surgiram no horizonte e o cansaço e as dores musculares deram lugar ao alívio e à emoção.
Completar o Caminho da Fé representa um marco para qualquer ciclista. Para Du e Dê, essa conquista vai muito além de uma medalha ou de um certificado de conclusão: simboliza um estilo de vida baseado no amor ao esporte, no cuidado com a saúde e em uma parceria construída a cada pedalada.
A vitória de Carlos Eduardo e Denise enche de orgulho os companheiros de pedal do Geleias Bikers e inspira toda a comunidade ciclística de Cotia. Eles nos lembram de uma verdade fundamental sobre o ciclismo: quando a determinação é grande e a parceria é verdadeira, não existe montanha alta demais que não possa ser superada.
Parabéns, Du e Dê! Que as pedaladas de vocês continuem inspirando muitos outros casais a ganharem as estradas da vida sobre as rodas de uma bicicleta.
*Manoel Lopes é autor de “Na Trilha dos Deuses”, livro que narra a jornada de um ciclista em busca da sustentabilidade, promovendo a conscientização ambiental e práticas mais responsáveis no cotidiano e do “Manual do Planejamento Cicloinclusivo – Diretrizes para as Cidades Sustentáveis e Resilientes”. Como escritor, palestrante e colunista, se destaca em Cotia, influenciando positivamente a comunidade e promovendo uma cidade mais sustentável e conectada com questões ambientais. Escreve mensalmente no Jornal Cotia Agora. @manoellopesgon

