Coluna de Rafael Oliveira. Moonspell – Hermitage: O legado do gothic metal

Vamos direto ao ponto: Hermitage (2021) é o disco mais maduro, introspectivo e elegante do Moonspell. Aqui não tem pressa, não tem pose, não tem refrão feito pra agradar algoritmo. É banda veterana olhando pra dentro, fechando a porta do mundo moderno barulhento e acendendo uma vela no silêncio.

Se os discos antigos eram catedrais góticas em chamas, Hermitage é um mosteiro de pedra fria. Pouca luz, muita reflexão. Não é um álbum para “primeira ouvida casual”. É disco de caminhada lenta, de noite, com o pensamento solto. E cresce — cresce muito.

Agora vamos faixa a faixa, porque esse álbum é um livro, não um panfleto.

The Greater Good – Começa solene, quase cerimonial! Não explode — se impõe. A música cresce com dignidade, como quem diz: “senta, escuta, isso é sério”. O peso aqui é emocional, não só distorção a experiência já começa profunda.

Common Prayers – Atmosfera densa, cadenciada, quase litúrgica. É Moonspell sendo Moonspell, mas com barba grisalha e olhar sábio. A sensação é de ritual coletivo, oração profana. Uma faixa que te puxa para dentro do conceito do disco.

All or Nothing – Aqui surge um pouco mais de nervo, mas ainda contido. Nada de explosão gratuita. A música trabalha tensão e liberação com inteligência. Ótima pra ouvir com fone, percebendo os detalhes — esse disco vive deles.

Hermitage – A faixa-título é o coração do álbum melancólico, introspectivo, quase filosófico, fala de isolamento escolhido, de afastamento consciente do ruído do mundo. Não é solidão triste — é retiro. É beleza austera.

Entitlement – Mais sombria mais crítica. Aqui o Moonspell olha para o mundo moderno com desconfiança e cansaço. A música é firme, pesada na medida, com um groove que não chama atenção, mas sustenta tudo. Classe pura.

Solitarian – Nome perfeito. Música solitária, introspectiva, quase claustrofóbica. Fernando Ribeiro canta como quem confessa não como quem performa. Essa faixa funciona como espelho — você se vê nela se tiver coragem.

The Hermit Saints – Uma das faixas mais interessantes do disco. Mistura espiritualidade, isolamento e identidade. Musicalmente rica cheia de nuances. É o Moonspell explorando o conceito até o osso. Cada audição revela algo novo.

Apophthegmata – Curta, quase um interlúdio filosófico. Mais falado, mais atmosférico. Parece um texto antigo lido à luz de vela. Serve como pausa reflexiva antes do último ato.

Without Rule – Aqui vem à libertação. Ainda melancólica, mas com uma sensação de desapego. É menos peso, mais fluidez. Dá a impressão de caminhar sozinho, mas em paz. Uma das mais bonitas emocionalmente.

City Quaint – Encerramento perfeito. Nostálgico, contemplativo, quase cinematográfico. A música fecha o disco como quem fecha um diário antigo. Não termina — se despede. E deixa silêncio depois, que é exatamente o que o álbum pede.

Vou dizer reto, sem firula — a melhor faixa de Hermitage é “The Hermit Saints”.

Por quê? Porque ali o Moonspell mostra tudo o que aprendeu com o tempo. É madura, densa, ritualística. Não é música pra pular, é pra absorver. Fernando Ribeiro canta como um monge velho que já viu o mundo acabar algumas vezes. A letra é contemplativa, o clima é quase litúrgico. Gothic metal em estado puro, sem maquiagem.

Agora, justiça seja feita, o disco é um bloco coeso. Outras faixas que batem forte:

  • “Common Prayers” – abertura poderosa, solene, dá o tom do álbum.
  • “Entitlement” – a mais direta, mais “rock”, acessível sem ser rasa.
  • “All or Nothing” – melancolia elegante, Moonspell clássico respirando fundo.
  • “Apophthegmata” – experimental, espiritual, coisa de banda grande que não precisa provar nada.

Resumo da ópera:

  • Hermitage não é álbum de hit, é álbum de estado de espírito.
  • “The Hermit Saints” é o coração silencioso do disco.

Se quiser, te digo a melhor faixa pra quem é fã antigo, pra quem vem do black/gothic, ou pra quem está conhecendo a banda agora.

Deve fazer parte da setlist do Programa Garimpo da Rádio Metelecohttps://meteleco.net – semanalmente exibido às 16hs de segundas as sextas-feiras.

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Hermitage não é um disco para todos — e isso é virtude.

É para quem já viveu, já perdeu, já desacelerou. Para quem entende que força também mora no silêncio.

Moonspell aqui soa europeu no melhor sentido: culto, melancólico, fiel à própria história. Nada de tentar parecer jovem. Eles escolheram ser verdadeiros.

Disco pra ouvir inteiro. Disco pra revisitar.

Como um velho mosteiro no alto da montanha: não chama atenção, mas transforma!

Instagram: @rafael.s.deoliveira.9

*Rafael S. de Oliveira – Mórmon/SUD – Com oficio de Elder, Diretor de Assuntos Públicos e Especialista de Bem Estar, membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Vice-Presidente – O Observatório: Associação de Controle Social e Políticas Públicas da Zona Oeste de SP (mandato 2020-2023). Técnico em Políticas Públicas pelo PSDB (Partido da Social Democracia do Brasil), Engenheiro de Produção e ex-gestor por 3 grandes empresas (Luft Logistics, IGO SP e TCI BPO). Apresentador e Produtor pela Rádio Meteleco.Net (Programa Garimpo) e Colunista no Jornal Cotia Agora (Caderno de Música, Discos, Experiencias e Cultura).