Coluna de Rafael Oliveira: A banda emo Brand New e o disco Science Fiction
Science Fiction, lançado em 2017, é o quinto e último álbum da banda americana de rock alternativo Brand New. Este disco marcou o encerramento de uma trajetória musical altamente influente e consolidada ao longo de quase duas décadas. Conhecida por sua capacidade de transitar entre o post-hardcore, o emo e o rock alternativo, a banda entrega em Science Fiction uma obra densa, madura e emocionalmente complexa, que reflete as lutas internas e questões existenciais tanto pessoais quanto universais.
Com uma produção mais sombria e introspectiva do que os trabalhos anteriores, Science Fiction aborda temas como isolamento, trauma, saúde mental e espiritualidade, além de reflexões sobre a natureza humana. Musicalmente, o álbum mistura atmosferas sombrias com momentos mais explosivos, criando uma experiência diversificada que, ao mesmo tempo, mantém a coesão e o estilo introspectivo característico do Brand New.
O álbum começa de forma enigmática e contemplativa com “Lit Me Up”. A introdução é pontuada por um sample de uma gravação de uma sessão de terapia, que coloca o ouvinte diretamente dentro do clima intimista e psicológico do disco. A música é construída lentamente com batidas suaves e guitarras minimalistas, enquanto as letras abordam a autoconsciência e o renascimento pessoal. O uso de reverb e camadas vocais criam uma atmosfera introspectiva e etérea, definindo o tom do álbum.
A segunda faixa é mais acessível e melódica, com um ritmo mais direto. “Can’t Get It Out” reflete sobre o impacto da música e a relação da banda com seu público e sua própria identidade artística. É uma canção mais otimista musicalmente, mas ainda com um subtexto lírico que lida com frustrações e inquietações pessoais. A combinação de guitarras mais brilhantes e a energia do refrão torna essa faixa um ponto alto para quem busca uma experiência mais “leve” no álbum.
“Waste” é uma faixa carregada emocionalmente, com letras que tocam em temas de saúde mental e dependência. A faixa tem uma progressão lenta, com acordes de guitarra simples, criando uma sensação de peso emocional. O refrão repetitivo, com a linha “last year was just a blur of my imagination,” reforça o senso de alienação. O instrumental minimalista realça o lirismo sombrio, fazendo com que a música se destaque pela crueza emocional.
Aqui, a banda adota um tom mais suave e acústico, com guitarras dedilhadas e harmonias vocais sutis. As letras refletem sobre mortalidade e espiritualidade, oferecendo uma pausa reflexiva no meio do álbum. “Could Never Be Heaven” traz um momento de vulnerabilidade, onde a melodia delicada cria uma conexão emocional profunda. É uma das faixas mais introspectivas e líricas do disco, permitindo ao ouvinte um momento de contemplação.
Uma das faixas mais intensas do álbum, “Same Logic/Teeth” começa de forma contida antes de explodir em um caos controlado, com riffs de guitarra agressivos e vocais que expressam desespero. As letras lidam com o ciclo de autossabotagem e a frustração interna, e a progressão da música reflete essa luta emocional. A forma como a música alterna entre momentos calmos e explosivos espelha a batalha interna que é retratada nas letras, criando uma experiência emocionalmente visceral.
“137” é uma faixa sombria e apocalíptica, com letras que fazem referência à destruição nuclear e à guerra. O ritmo lento e os riffs pesados criam uma atmosfera opressiva, quase cinematográfica. A música cresce em intensidade, culminando em um final poderoso, onde a distorção das guitarras se torna esmagadora. Liricamente, é uma meditação sobre o fim do mundo, tanto literal quanto metafórico, e sua intensidade cresce conforme a música avança.
Mais uma faixa energizada, “Out of Mana” mistura rock alternativo com toques de post-hardcore, trazendo guitarras pesadas e uma estrutura mais dinâmica. Liricamente, a canção lida com sentimentos de frustração e impotência, explorando a falta de controle em situações da vida. A combinação de riffs poderosos e vocais emocionalmente carregados torna esta faixa uma das mais agressivas e impactantes do álbum.
“In the Water” tem um tom mais melancólico e nostálgico. A faixa se destaca pelo uso de elementos que remetem ao country e ao folk, com guitarras suaves e um ritmo mais cadenciado. As letras são reflexivas e abordam temas de redenção, arrependimento e esperança, enquanto a instrumentação cria uma sensação de amplitude emocional. É uma faixa que proporciona um momento de respiro e contemplação no álbum.
Uma das músicas mais enigmáticas do álbum, “Desert” mistura uma batida constante com guitarras distorcidas, criando uma sonoridade minimalista e hipnótica. A letra é provocativa, abordando temas de fé, violência e fanatismo. A entrega vocal de Jesse Lacey é carregada de cinismo, e a repetição das frases cria uma sensação de desconforto e tensão.
“No Control” é uma faixa que volta ao som mais característico do Brand New, com guitarras vibrantes e uma batida enérgica. As letras lidam com a sensação de impotência e perda de direção, temas centrais em Science Fiction. Apesar de sua estrutura relativamente simples, a energia da música e sua melodia cativante fazem dela uma das faixas mais acessíveis e memoráveis do álbum.
“451” traz um ritmo mais pulsante e influências claras de blues e rock clássico, com riffs de guitarra carregados e uma batida sólida. As letras falam sobre transformação e desejo de mudança. A faixa se destaca pela produção crua e pela performance energética da banda, mostrando um lado mais “rock’n’roll” do Brand New, mas ainda com a profundidade emocional que permeia todo o álbum.
O álbum termina com “Batter Up”, uma faixa atmosférica e contemplativa. Lenta e arrastada, ela encerra Science Fiction com um sentimento de resolução e ao mesmo tempo de incerteza. As letras são vagas e introspectivas, deixando o ouvinte refletindo sobre o significado das palavras e a jornada emocional que o álbum proporciona. O instrumental minimalista e os vocais distantes criam uma sensação de espaço, encerrando o álbum de forma melancólica e misteriosa.
A escolha da melhor música de Science Fiction pode variar conforme o gosto do ouvinte, mas uma das faixas mais marcantes e amplamente aclamadas é “Same Logic/Teeth”. Essa canção destaca-se pela sua intensidade emocional, alternando entre momentos de calma e explosão. O lirismo aborda o ciclo de autossabotagem e lutas internas, temas centrais no álbum.
Musicalmente, a faixa constrói tensão com sua progressão dinâmica, começando de forma contida e evoluindo para uma catarse agressiva, com guitarras pesadas e vocais cheios de desespero. É uma das músicas que melhor representa a profundidade emocional e o som sombrio e introspectivo de Science Fiction, proporcionando uma experiência visceral tanto musicalmente quanto liricamente. Eu escolho para fazer parte da setlist do Programa Garimpo da Rádio Meteleco – https://meteleco.net – semanalmente exibido às 16hs de segundas as sextas-feiras.
Science Fiction é uma jornada emocional densa, em que o Brand New equilibra momentos de introspecção e explosão emocional com habilidade. Cada faixa oferece algo único, seja em termos de sonoridade ou narrativa lírica, mas todas elas convergem para uma sensação unificada de autoanálise e contemplação sombria. O álbum não se limita a um único estilo musical, explorando elementos de rock alternativo, folk, e até blues, o que torna a experiência de ouvi-lo rica e multifacetada.
Para os fãs da banda e novos ouvintes, Science Fiction é uma experiência desafiadora, mas gratificante, uma obra-prima melancólica que encapsula as lutas internas da vida e o fim de uma era para a própria banda.
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