A paisagem tem sentimentos – por Manoel Lopes

Pedalar é uma experiência que vai muito além de percorrer caminhos. Seja numa cicloviagem, atravessando cidades e regiões desconhecidas, ou simplesmente pelas estradas e ruas próximas de onde moramos, a bicicleta sempre nos reserva a possibilidade de encontrar algo que nos encante.

Não importa se a rota é famosa, conhecida ou se aparece nos guias de cicloturismo. Sempre haverá uma vista inesperada, uma paisagem surpreendente, uma pequena vila, uma árvore ou simplesmente um horizonte que nos fará diminuir a velocidade e admirar.

É nesse momento que costumo dizer: a paisagem tem sentimentos.

E digo isso porque conversamos com ela. Às vezes, sem perceber, deixamos escapar expressões espontâneas: “Que lugar lindo!”, “Olha só que beleza!”, “Você está vendo isso?”. São manifestações de encantamento, quase como se estivéssemos diante de alguém que acabou de nos fazer uma surpresa.

Existe algo contagiante no novo, naquilo que nos distancia do cotidiano e nos apresenta uma realidade diferente daquela que encontramos todos os dias. O inesperado desperta nossa curiosidade, alimenta nossa imaginação e nos devolve uma capacidade de admiração que, muitas vezes, a rotina acaba escondendo.

Mas será que a paisagem é realmente tão especial ou somos nós que estamos mais disponíveis para enxergá-la?

Essa é uma reflexão interessante para quem pedala. A bicicleta nos proporciona uma relação diferente com o ambiente. Não estamos apenas atravessando um território; estamos participando dele.

Sentimos quando o vento vira, percebemos mudar a temperatura ao longo do dia, os cheiros, o relevo nas pernas, os sons ao redor e até o momento em que o asfalto dá lugar à terra. São detalhes que dificilmente perceberíamos dentro de um automóvel.

E talvez esteja aí uma das maiores riquezas do ciclismo: aprender a relativizar as coisas. Descobrir que não precisamos atravessar continentes, subir montanhas famosas ou conhecer destinos disputados para experimentar momentos extraordinários. Às vezes, a beleza está a poucos quilômetros de casa, esperando apenas que alguém passe por ali com um olhar diferente.

Pedalar também nos ensina que a felicidade não está necessariamente no destino, mas naquilo que acontece durante o percurso. É uma oportunidade de interromper o automático, deixar as preocupações um pouco de lado e perceber que ainda somos capazes de nos surpreender com coisas simples.

Por isso, se me perguntarem qual é o melhor remédio para combater a monotonia, o cansaço de uma rotina repetitiva ou aquela sensação de que os dias estão passando sem grandes emoções, eu recomendaria uma bicicleta e um caminho qualquer.

Não precisa ter pressa, nem destino certo. Basta permitir-se olhar. A bicicleta nos faz ganhar o lugar com o corpo. Um carro atravessa um estado em quatro horas. Um avião atravessa um país numa tarde. Mas quem pedala não apenas chega ao destino: vive o caminho, faz parte dele e leva consigo um pouco de tudo o que encontrou pelo percurso.

Porque, no fundo, talvez a paisagem não tenha sentimentos. Talvez seja a bicicleta que nos devolva os nossos.

*Manoel Lopes é autor de Na Trilha dos Deuses, livro que narra a jornada de um ciclista em busca da sustentabilidade, promovendo a conscientização ambiental e práticas mais responsáveis no cotidiano. Como escritor e colunista, se destaca em Cotia, influenciando positivamente a comunidade e promovendo uma cidade mais sustentável e conectada com questões ambientais. Escreve mensalmente no Jornal Cotia Agora.