Advogado e poeta cotiano, Luiz Carlos de Oliveira, lança novo livro “MENINO DE RUA- ADULTO DE…”

Luiz Carlos de Oliveira, advogado e poeta de Cotia, autor do livro “Um pouco de mim, de ti, de nós…”, que já foi colunista do Jornal Cotia Agora, está lançando seu novo livro “MENINO DE RUA- ADULTO DE…”, que, na verdade, retrata experiências da própria vida do autor.

Não se trata, porém, de autobiografia. Conta a história de Bentinho, menino de rua, mas num prisma universal, vez que o abandono tanto pode existir nas calçadas, como dentro de uma casa luxuosa, onde a mesa nunca conheceu a ausência de pão, mas falta presença, afeto e pertencimento.

INTRODUÇÃO

“Menino de rua – adulto de… “, não é apenas um título inacabado. É um convite. Um chamado para olhar além das palavras e enxergar o que não foi dito – ou o que, muitas vezes, nunca pode ser dito.

Este livro nasce no silêncio que grita nas esquinas, das histórias que passam despercebidas dos faróis, das vidas que aprendem cedo demais que o mundo nem sempre acolhe. Aqui, a infância não é sinônimo de proteção, mas de resistência. Não há contos de fadas, mas há luta, adaptação e, acima de tudo, sobrevivência.

O menino de rua não é apenas um personagem. Ele é símbolo de abandono, mas também de força. Cresce entre olhares que desviam, entre mãos que não se estendem, entre dias que ensinam mais sobre dureza do que sobre esperança. E ainda assim cresce.

Mas o que se torna esse menino?

O adulto que emerge dessa trajetória carrega marcas invisíveis- algumas cicatrizadas, outras ainda abertas. Carrega também aprendizados que não vieram de livros, mas da própria vida. Este livro percorre esse caminho: da inocência interrompida à construção de uma identidade forjada na adversidade.

Aqui, não se busca romantizar a dor, nem reduzir a complexidade de uma história a rótulos. Busca-se compreender. Dar voz. Humanizar.

Porque por trás de cada menino de rua, existe um adulto em formação. E por trás de cada adulto, existe uma história que merece ser contada. E talvez, ao final, a maior pergunta não seja “Adulto de quê?”, mas sim: Que mundo foi esse que o formou?

Na verdade, MENINO DE RUA – ADULTO DE… é um livro inspirado em experiências reais vividas pelo autor durante a infância. Transforma uma trajetória particular em uma reflexão universal: afinal, o abandono não habita apenas as ruas. Muitas vezes ele se esconde dentro de lares onde nada falta materialmente, mas faltam presença, afeto e acolhimento.

Entre escolhas, encontros e desencontros, Bentinho caminha por um mundo que parece decidir seu destino antes mesmo que ele descubra quem é.

Mais do que um romance, esta é uma história sobre a fragilidade da infância, a força da esperança e a pergunta que acompanha toda criança abandonada:

Que adulto nascerá desse menino?

APRESENTO O PRIMEIRO CAPÍTULO DO LIVRO AOS LEITORES DO COTIA AGORA

Bentinho não se lembrava exatamente de quando tudo começou a faltar.
A ausência não chegar de uma vez.
Ela se insinua.
Primeiro falta o riso fácil dentro de casa.
Depois o tempo. Em seguida, a paciência. E, quando se percebe, falta até o olhar.
De uma família humilde do interior, nasceu o terceiro entre quatro filhos. O pai lavrador. A mãe doméstica. A vida dura – mas não necessariamente triste.
Havia sol.
Havia terra.
Havia, de vez em quando, aquele instante raro em que tudo parecia suficiente.
Mas Bentinho… chorava muito.
Não era choro comum. Não era só fome, nem só sono. Era como se alguma coisa dentro dele gritasse antes mesmo dele aprender a falar.
-Esse menino é diferente- diziam.
Não para.
Não se ajeita.
Um estranho no ninho.
As palavras ficavam no ar, como ficam certas coisas que não se esquecem – mesmo sem entender.
Um dia o pai sumiu. E não voltou.
Depois disso, outras ausências vieram.
Menores. Maiores. Silenciosas.
As crianças foram sendo levadas.
Uma. Depois outra. Depois outra.
Bentinho ficou.
Não porque escolheram, mas porque não coube.
Talvez porque não houvesse lugar.
Ou porque algo nunca tenha sido resolvido.
Ou porque ninguém explicasse…
E foi assim que a casa ficou menor.
Até não caber mais ninguém.
Nem ele.
Tinha sete anos.
De repente, sem se lembrar quando, começou a caminhar sozinho.
Algumas memórias nascem sem data.
Talvez tenha sido numa manhã qualquer, quando percebeu que as pessoas passavam por ele como se o mundo estivesse sempre atrasado para algo mais importante.
Talvez tenha sido antes disso.
Porque há abandonos que começam muito antes da ausência.
Bentinho aprendeu cedo que existir não significa necessariamente ser visto.
As calçadas tinham um idioma próprio: o barulho dos passos apressados, o ranger distante de portas metálicas abrindo, o cheiro de pão fresco escapando das padarias.
A cidade acordava todos os dias.
Mas não acordava para ele.
Ainda assim, havia uma curiosidade dentro daquele menino.
Uma espécie de chama pequena que o frio das madrugadas não conseguia apagar.
Ele observava as pessoas.
E descobria algo que poucos adultos percebiam: em cada rosto uma história tentando não aparecer.
Algumas faces carregavam pressa, outras, cansaço.
E havia aquelas que sorriam de forma tão perfeita que pareciam esconder alguma coisa.
Bentinho não sabia explicar aquilo.
Mas intuía.
Porque a verdade – aprenderia mais tarde – tem uma beleza própria quando não veste máscaras.
A verdade é mais bonita nua.
E, certa tarde, sentado num degrau de uma loja fechada, ele viu uma menina rir.
Não era um riso educado, desses que os adultos oferecem por conveniência.
Era um riso inteiro.
Livre.
Naquele instante algo estranho aconteceu.
A rua pareceu parar.
Os carros continuavam passando.
As pessoas continuavam andando.
Mas, para Bentinho, o tempo havia suspendido a pressa.
Ele não sabia ainda colocar isso em palavras.
Só muitos anos depois entenderia: o tempo para na espontaneidade do riso de uma criança.
Talvez porque ali não exista cálculo.
Ou porque ninguém esteja tentando esconder algo.
O riso jorra como a água cristalina da fonte…

PALAVRAS DO AUTOR
Este livro não nasceu para contar apenas a história de um menino de rua. Nasceu para provocar uma pergunta: o que acontece com a criança que cresce sem pertencimento, sem acolhimento e sem alguém que a enxergue?

Bentinho representa muitos, em alguns momentos, talvez represente todos nós. Porque existem ruas de concreto e existem ruas invisíveis, percorridas silenciosamente dentro da alma.

Se esta obra despertar mais compreensão do que julgamento, mais humanidade do que indiferença, ela já terá cumprido seu propósito.

Boa leitura.

Luiz Carlos de Oliveira

HOMENAGEM
Dedico este livro à minha esposa Zenaide, aos meus filhos Fernando Luiz, Alessandra, Carlos Alberto, Michele e Aline, e também aos meus pais adotivos Luiz Gomes e Doralice (in memoriam).

BIOGRAFIA DO AUTOR:

Luiz Carlos de Oliveira nasceu em Maringá – Paraná. Filho de pai lavrador e de mãe dedicada ao lar, mudou-se para Cotia, São Paulo, aos cinco anos de idade, onde vive até hoje.

Em razão de desajustes familiares, viveu sendo menino de rua dos sete aos doze anos e meio. Sua história começou a mudar quando foi acolhido por Luiz Gomes, “Seu Luiz da barriquinha”, que lhe ofereceu um verdadeiro lar e a oportunidade de ingressar no primeiro ano do Grupo Escolar Baptista Cepellos. A partir de então, nunca mais interrompeu os estudos.

É advogado e pós-graduado em Direito Civil e Processual Civil (lato sensu) pela Universidade de São Paulo- USP.

Descobriu a escrita quase sem perceber: escrevia reflexões e textos espontaneamente, até mesmo durante as refeições. Em 2015, publicou seu primeiro livro de poemas, “Um pouco de mim, de ti, de nós…” pela Editora Scortecci. Agora, apresenta Menino de Rua – Adulto de…, obra que transforma em literatura uma trajetória marcada pela superação, pela gratidão e pela esperança.