Coluna de Marcos Martinez (Marcão). Cotia: As histórias esquecidas

“Tive o privilégio de visitá-la um dia, quando sentada no leito, penteava seus cabelos; hora ideal para contar histórias e revelar segredos”- Ecléa Bosi

O marca-passo da história de Cotia, tem falhado e apagado a memória dos que construíram a cidade. Os povos originários que aqui habitavam foram expulsos. Foram também, catequizados e toda sua cultura passou a ser motivo de vergonha. Foram cooptados. Os que resistiram foram exterminados. Imagina as mulheres originárias? Nenhuma, virou nome de rua ou de escola. Os invasores em busca de matéria prima foram impiedosos. Atropelaram as culturas existentes, sem dó. Essas histórias não podem ser esquecidas.

Ao escrever sobre a história do Hospital de Cotia, cometi uma insensatez, negligenciei a participação das mulheres nos eventos, para levantar recursos para construção do Hospital. Elas eram intensas: Festas, bingos e feitura de quitutes, organizavam e mobilizavam a cidade em prol do hospital. Destacava-se entre as centenas de mulheres, a jovem Maria do Carmo Lemos de Oliveira (saudosa). Uma liderança nata, alegre, carismática e empenhada na construção do primeiro hospital da cidade. Essas mulheres não podem ser esquecidas.

A professora Isabel Leal Leite, conhecida como Belica (A escola do Jardim Lavapés recebeu seu nome), saía de Cotia para lecionar em Itapevi, em condições precárias de espaço e transporte. Dona Belica construiu o clube de mães, ensinava às mães crochê, tricô e costura. Organizou uma equipe de mulheres que confeccionava enxoval de bebês, que eram doados às mães que precisavam. Uma mulher dinâmica, catequista e ajudava pessoas doentes, dando assistência.

Cinira Cruz, doou o terreno onde foi construída a Vila Vicentina, foi um propósito de vida. Essas mulheres não podem ser esquecidas.

Mulheres protagonistas: Dona Oscarlina Pedroso Victor, Dona Nice Savioli, Dona Linda Riscali Name, Djanira Pedroso Torrezani, Ana Macieira de Oliveira, Benedita Amélia Barreto Alves, Antonia Luiza Moraes Barreto, Dona Virgília Dias Vieira, Maria Bernadete Pedroso Torrezani, Aracy Passos Crem da Silva, Clara (Clarice) Martins Pedroso, Maria Aparecida do Rosário Magalhaes, Dona Irene Lemos Leite Silva, Therezinha de Oliveira Victor, Guaraciaba de Queiroz Nunes.

Mulheres com um imenso espírito comunitário. Elas representam todas as mulheres da cidade, do presente e do passado. Algumas me ajudaram a escrever o livro Memória & Imagem, com lucidez das suas lembranças, dos velhos tempos. Elas estiveram engajadas em trabalhos sociais e religiosos. Há entre elas, professoras, donas de casa, mães, que se colocaram com a sua sabedoria e disposição, para formar uma identidade para Cotia. Mulheres que não podem ser esquecidas.

Antes da construção do Hospital, as mães grávidas tinham seus filhos em São Roque ou São Paulo, mas a maioria nascia pelas mãos de parteiras e benzedeiras. Não posso esquecer da mãe Cida (Maria Aparecida de Oliveira), primeira mulher eleita vereadora, tinha um espírito de justiça, valioso. Essas mulheres não podem ser esquecidas.

*Marcos Martinez é escritor e formado em História; atuou na Secretaria da Educação de Cotia de 2000 a 2008. Atualmente, presta trabalho na Fundação Gentil, na elaboração e implantação de projetos educacionais para o ensino fundamental. Escreveu os livros Memória & imagem e Hospital de Cotia: um símbolo. Escreve mensalmente no Jornal Cotia Agora.