Conto de Antônio dos Santos Camargo: As Gêmeas
As gêmeas Júlia e Juliana são chamadas, hoje, de Ju Gorda e Ju Magra, apelidos dados pelo pai, totalmente insensível à vaidade feminina. A Ju Magra não deu muita importância pois não fora atingida por essa indelicadeza, mas ficava chateada com a aceitação da irmã. O fato é que hoje elas podem ser distinguidas facilmente. A Ju Gorda, além dos quilinhos a mais, parece mais velha, embora mantenha a semelhança no rosto, nas sardas, sorriso, olhos e nariz. Mas nem sempre foi assim. Há alguns anos, elas eram vestidas com roupas iguais, usavam o mesmo corte de cabelo e a mãe delas gostava de exibi-las como troféus. “Estas são minhas princesas. Esta é a Júlia e esta é a Juliana” – dizia ela. “Como a senhora sabe?” – perguntavam. “Coisas de mãe. Uma mãe conhece suas crias.”
Com o tempo, as personalidades foram se desenvolvendo e já era possível distingui-las pela diferença de comportamento. Uma era certinha, estudiosa, recatada, preocupada com o futuro e a outra era fogosa, extrovertida, interesseira e só pensava em ficar rica e gozar a vida. Logo começaram a namorar. O namorado da Juliana era um rapaz educado, certinho, filho de comerciantes, trabalhador, mas um pouco machista. No entanto, logo conquistou a simpatia dos pais dela. O namorado da Júlia era diferente. É pobre, embora ostente um carro esporte novo, que foi o que despertou o interesse dela, muito bonito e não aparenta ter preocupação com o futuro. Ele quase não entrava na casa dela e seus pais repudiavam o namoro deles. Júlia considerava o namoro da Juliana um tédio e Juliana dizia que o namoro da Júlia era indecente. O tempo foi passando, com os pais divididos entre a simpatia pelo namorado de uma e antipatia pelo da outra. Tudo seguia nesse ritmo até que um dia Júlia ficou sabendo que o namorado da Juliana iria receber uma fortuna de herança. Tudo mudou na cabeça dela. O instinto interesseiro logo se manifestou em suas veias. Começou a fazer uma reavaliação de sua vida. Entre ter um marido bom de cama e um marido rico, o que seria mais interessante? A resposta para ela era simples, a riqueza pode comprar qualquer coisa, portanto a segunda opção é mais importante. Começou, então, a articular um plano para ficar com o namorado da irmã. Ela propôs à irmã que se passasse por ela e desse uns conselhos ao João Paulo, seu namorado, para que ele tomasse juízo e se espelhasse no João Batista, namorado da Juliana.
Disse que admirava o comportamento do João Batista, sua preocupação com o futuro e da simpatia que seus pais sentiam por ele, coisas que o João Paulo não tinha. Juliana ficou indignada com a proposta, achou indecente e disse que jamais faria aquilo. Disse ainda que seu namoro com o João Batista estava com os dias contados pois suas ideias não combinavam e ela iria terminar com ele na próxima visita. Júlia argumentou que isso seria um bom motivo para ela aceitar a proposta. “Antes de terminar o seu namoro, você pode salvar o meu” – disse ela quase suplicando. Juliana foi categórica, jamais se submeteria a fazer uma coisa imoral só para satisfazer os caprichos da irmã. Só que, à noite, João Batista chegou à casa e anunciou a intensão de se casar com a Juliana o mais breve possível. Informou que havia recebido de herança uma fazenda muito grande e muito valiosa em Mato Grosso e pretendia se casar e levar todos da família para lá. Os pais dela ficaram entorpecidos de felicidade, mas Juliana não aceitou. “E meus estudos, meus projetos de futuro, como ficam?” – disse ela. “Para que estudar? Você não vai precisar trabalhar, ninguém da família vai precisar trabalhar” – rebateu ele. “Eu estudo porque gosto de estudar e vou trabalhar por quero trabalhar, ninguém vai mudar isso” – disse ela em tom desafiador. “Nós já demos o consentimento, você vai ter que aceitar” – disse seu pai em tom severo. Juliana saiu da sala e foi para o quarto. Os pais procuraram consolar João Batista, dizendo que aquilo era coisa de momento e que eles iriam convencê-la a se casar com ele. João Batista foi embora e os pais foram falar com Juliana.
Disseram que ela estava sendo egoísta e estava jogando fora a única oportunidade que eles tinham de sair daquela pobreza em que viviam, e que ela, depois de casada poderia mudar a maneira de pensar do marido e conseguir o que quisesse. Disseram muito mais coisa, mas só aumentou a raiva que Juliana estava sentindo naquele momento. Júlia, que havia assistido a tudo, assim que seus pais saíram do quarto, foi conversar com a irmã. Juliana estava com tanta raiva que, antes da Júlia falar alguma coisa, perguntou: “Aquela proposta ainda está de pé?”
No dia seguinte, assim que João Paulo estacionou o carro em frente à casa, Juliana entrou e se sentou no banco do passageiro sem dizer nada. João Paulo olhou para ela por quinze segundos, abriu um sorriso e disse: “Juliana, que surpresa agradável!” Juliana tomou um pequeno susto e disse: “Júlia”. “Não, você é Juliana. Posso saber o motivo da sua companhia? Pode olhar para mim, eu não mordo.” Juliana continuava cabisbaixa. “Você está blefando. Como você sabe que eu não sou a Júlia?” – Ela nem percebeu que havia se entregado. “Eu poderia dizer que, se fosse a Júlia, já teria pulado em mim, mas não é só isso, não é só sua mãe que consegue distingui-las, eu também consigo.” “Como assim?” “Simples, eu sou design gráfico e, modéstia à parte, tenho uma visão privilegiada. Eu consigo distinguir seus rostos com facilidade.” “Minha mãe diz que consegue nos distinguir pelo nosso cheiro.” “Desculpe, mas não é por isso. Você tem duas sardas a mais no nariz, uma de cada lado e, também, porque é meio centímetro mais baixa do que sua irmã. Estou muito contente de você ter vindo, mas muito curioso.” Juliana percebeu que seu plano havia dado errado e resolveu contar a verdade. Contou sobre a ideia da sua irmã de fazê-la tentar mudar a cabeça dele, do que tinha acontecido na noite anterior, inclusive da proposta de casamento que havia deixado ela revoltada. Disse que tinha repudiado a ideia da irmã, mas quando seus pais tentaram forçá-la a se casar resolveu aceitar, como vingança, mas já havia se arrependido e iria sair. “Espere um pouco, deixe-me falar umas coisas a meu respeito que você não sabe. Primeiro: eu ficaria aqui a noite inteira conversando com você, sem tocá-la. Segundo: a ideia da sua irmã está diretamente relacionada com a herança que o João Batista vai receber, fui eu que falei para ela sobre essa herança. Foi o próprio João Batista que me falou sobre ela, para se gabar. Nós não nos damos bem e ele sempre arruma um jeito de se comparar a mim. Sua irmã é muito ambiciosa, você sabe disso. Eu sou um cara pobre, este carro não é meu, é do meu pai. Ao contrário do que vocês pensam, eu sou muito estudioso e muito trabalhador”. “Interessante, o que você faz?” – disse Juliana olhando para ele pela primeira vez. “Acabei de me formar Design Gráfico e trabalho em uma empresa de publicidade no centro da cidade. Antes que você pergunte, eu namorava a sua irmã porque a considero uma jovem linda, carinhosa, interessante… só isso, mas nós não teríamos futuro, nossas cabeças são muito diferentes. Eu imagino que nossa situação seja um pouco parecida com a sua, a gente fica adiando a decisão de terminar o namoro e o tempo vai passando. No meu caso, sua irmã não me deixava respirar, mas nosso namoro iria terminar daqui a dois meses, porque estou batalhando uma bolsa de estudos e fazer minha especialização na França. Você consegue acreditar em mim?” “Há pouco seria difícil, mas acredito. Você fala muito bem, ao contrário do João Batista que é um desastre na língua portuguesa e, também, por causa das sardas. Aliás, a primeira coisa que vou fazer quando entrar em casa será confirmar isso. Tchau, apesar de tudo foi um prazer conversar com você.” “Volte amanhã, por favor. Sua irmã e o João Batista devem estar se pegando neste momento e acho que você se livrou do casamento. Vamos dar uma chance para nós, eu prometo ser cavalheiro.” “Vou pensar” – disse ela e saiu. De fato, a Júlia não perdeu tempo, vestiu uma roupa bem ousada e começou a se insinuar para o João Batista. Ele estranhou o comportamento, mas, ao mesmo tempo, se rendeu aos atrativos dela. Afinal, era uma experiência que ele não conhecia. Ela, por sua vez disse que já que havia resolvido se casar com ele, seria melhor se conhecerem mais intimamente. Ele embarcou nessa jogada sem desconfiar. Em paralelo, a boa impressão que Juliana havia tido do João Paulo logo se tornou uma paixão muito forte, ao ponto de ela aceitar viajar com ele para a França e tentar fazer sua pós-graduação lá. Mas a Juliana e o João Paulo estavam incomodados com aquela situação. O João Batista, apesar de tudo, não merecia ser enganado. Juliana, então, decidiu contar tudo para os pais no dia seguinte. Na hora que a família estava reunida para jantar, Juliana disse aos pais que a Júlia não estava mais namorando o João Paulo e ela não estava namorando o João Batista. “Você está louca? – disseram eles. “Quem está namorando o João Batista agora é a Júlia e eu estou namorando o João Paulo”. “Ah bom” – disse o pai, desconsiderando a antipatia que sentia pelo João Paulo. O importante era uma delas se casar com o João Batista. “Outra coisa, – continuou Juliana – a única pessoa que não sabe dessa troca é o João Batista, mas eu vou contar assim que ele voltar de Mato Grosso.” A Júlia pediu para deixar que ela contasse, a Juliana discordou dizendo que ela era a namorada e o certo seria ela contar. Os pais pediram para que eles contassem, de uma forma que ele não desistisse do casamento. Juliana disse que eles tinham até o final do mês para contarem a verdade pois no mês seguinte ela embarcaria para a França com o João Paulo. À véspera da viagem, Juliana perguntou à irmã se estava tudo certo com o João Batista. Júlia disse que ele ainda não havia chegado de viagem, mas que ela poderia ficar tranquila pois tinha um argumento forte para se casarem: estava grávida. “Não faltava mais nada – exclamou Juliana – boa sorte, então.” No dia seguinte ela e João Paulo embarcaram para a França. O tempo passou, Júlia se casou, a criança nasceu, mudaram-se para Mato Grosso enquanto Juliana e João Paulo davam duro lá na França para poderem se sustentar e manter seus estudos, tudo no maior clima de amor. Terminaram os estudos e voltaram para o Brasil, com currículos ricos e várias propostas de trabalho. Resolveram visitar a família dela em Mato Grosso e contar as novidades. A visita foi muito fria, os pais não se interessaram pelas novidades, a Júlia estava incomodada por estar mais gorda, o João Batista sequer quis falar com eles. Voltaram para São Paulo chateados. João Paulo disse que talvez houvesse um jeito deles o aceitarem na família: se eles se casassem. “Talvez o problema seja esse” – disse ele. Juliana não concordou, mas diante da insistência dele, aceitou. Afinal, isso não mudaria nada na vida deles. Esperaram quinze dias e deram entrada nos documentos.
Alguns dias depois, receberam um comunicado do cartório dizendo que a Juliana não poderia se casar, pois já era casada. Na hora eles deduziram tudo: eles não tinham contado a verdade para o João Batista, a Júlia havia se casado usando cópias dos documentos da irmã. O sangue da Juliana ferveu e ela decidiu ligar, naquele instante, para o João Batista e contar toda a verdade. No momento que ia pegar o celular, o telefone tocou. Era sua mãe dizendo que havia acontecido uma desgraça: o João Batista tinha morrido e ela tinha que viajar para lá imediatamente. Juliana não teve alternativa e viajou novamente para Mato Grosso, com sentimentos de pesar e remorso. Ao chegar lá, o pesar desapareceu e a raiva triplicou. O João Batista já havia morrido há dez dias, eles precisavam da presença dela porque, ao darem entrada no testamento, o cartório informou a descoberta de mais uma Juliana Barnabé, filha de mesmos pais. Eles queriam que ela assinasse um documento dizendo que ela era Júlia e não Juliana e tudo não passava de uma confusão. Se não assinasse, os advogados iriam entrar com um processo de falsa identidade contra ela. Juliana não assinou, xingou todo mundo e voltou para São Paulo arrasada. Antes, ligou para o João Paulo e ele pediu para ela ficar calma que, quando chegasse em casa, resolveriam tudo. “Como?” – perguntou ela. “Quando você chegar eu conto”. No dia seguinte, Juliana ligou para a família e pediu para convocarem uma reunião com todos os envolvidos, principalmente os pais do João Batista e os advogados. Quem chegou à reunião foi o João Paulo, acompanhado de seu advogado. Mal se cumprimentaram e o advogado foi logo dizendo: “Sra. Júlia, devo lembrá-la de que a Sra. não pode provar que é a Juliana, mas pode provar que é mãe dos filhos do Sr. João Batista. A metade de toda herança pertence aos filhos e, a Sra. como mãe tem o direito de administrar os bens até a maioridade deles.” O outro advogado contestou: “Espere aí, Dr., quem tem que provar que é a Juliana é sua cliente.” O primeiro advogado respondeu: “As duas vão ter que provar. Eu também entrei com uma ação criminal contra sua cliente. A minha cliente só reivindica o seu nome de volta e o direito de poder se casar. Para adiantar esta reunião, o Sr. João Paulo gostaria de fazer umas perguntas”. Antes de perguntar, João Paulo projetou na parede uma foto antiga, a única foto em que apareciam as duas irmãs, cada uma abraçada com o respectivo namorado. Ao lado, projetou uma foto recente da Juliana abraçada a ele. “Sra. Ester, olhando para a primeira foto, quem é a Juliana e quem é a Júlia? Ao que eu saiba, a Sra. era a única que sabia distingui-las.” Dona Ester receou um pouco antes de responder. “Ora, a Juliana é que está abraçada com o João Batista.” João Paulo perguntou: “Como a Sra. sabe? A Sra. dizia que as distinguia pelo cheiro, mas não dá para cheirar a foto.” Dona Ester gaguejou: “Uma mãe conhece suas crias”. “Muito bem, eu digo que são por causa de duas sardas a mais que a Juliana tem no nariz – disse João Paulo – nós vamos enviar essas fotos para um perito esclarecer. Antes que os advogados contestem, peço para fazer uma pergunta à esposa do Sr. João Batista: Eu já a vi nua alguma vez?” Foi uma revolta geral, todos foram para cima do João Paulo e tiveram que ser contidos pelos advogados. “Desculpem, foi só uma pergunta, basta responder”. Júlia olhou para os pais antes de responder. “Claro que não!” “Poderia repetir, por favor” – pediu o advogado. “Claro que não.” – disse ela chorando. “Muito bem – continuou João Paulo – então como é que eu sei que a Sra. tem uma tatuagem com as iniciais do meu nome na sua virilha esquerda?” O outro advogado gritou: “Isso não prova nada”. “Bom, Dr., são coisas a serem investigadas. Devo adiantar que temos o depoimento do tatuador, os registros do procedimento e o documento de autorização com a assinatura da Sra. Júlia. Esta reunião foi gravada e será juntada aos autos. Portanto, pensem bem no que vão fazer.” Levantaram-se e saíram da sala. Quando João Paulo chegou em casa, Juliana perguntou como ele conseguiu contornar aquela situação. “As duas sardas a mais no seu nariz, só isso” – disse ele. “Não pode ser, eles teriam contestado”. “Deixe prá lá, meu amor, foi só isso e pronto. Agora é só esperar.
E assim termina a história. Júlia teve que pagar pelo crime de falsidade ideológica, perdeu sua parte da herança e teve que voltar para São Paulo por causa da vergonha e da briga com os pais do João Batista, que ficaram com a outra parte. Juliana resgatou seus direitos e pôde se casar com João Paulo. A relação familiar terminou por completo.
*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.
