Conto de Antônio dos Santos Camargo: Luz Divina
Sentado à uma das mesas do bar, Tonhão parece estar meditando, mas, na verdade, está totalmente desorientado. Ele tenta, desesperadamente, fugir de seus problemas, em meio a um turbilhão de pensamentos desconexos. Os conflitos em sua cabeça estão o deixando louco. Chico Pintado, dono do bar, já fez várias advertências a ele: “Ou consome alguma coisa ou desocupa o lugar. Você está há uma hora aí sentado”.
Acontece que o Tonhão tinha vindo da igreja e, como sempre fazia, tinha jurado a Deus que nunca mais colocaria uma gota de bebida alcoólica na boca e, como sempre, tinha parado no bar para beber. Tonhão lutava com todas as suas forças para honrar seu juramento, mas continuava ali sentado. As orações que fazia na igreja, os conselhos e pressões que recebia os levavam a viajar em seus pensamentos, mas não o faziam levantar-se dali. Ele não aguentava mais aquela vida de bebida, aleluia, amém e, novamente, bebida. É uma vida de lavagens, pensava ele, nos raros momentos de sobriedade. Ele achava que a bebida limitava seus passos e a igreja limitava sua mente.
Só via sentido em sua vida se conseguisse, de alguma maneira, resgatar o domínio de seus passos e a liberdade de sua mente. Só assim conseguiria sonhar, aprender, ensinar, pensar, criar, contestar e viver. Há um bom tempo, sua vida se resumia naquela rotina: Ia à igreja para se afastar da bebida e recorria à bebida para recuperar sua mente. Só que hoje foi diferente, o pastor falou que uma luz iria aparecer para ele e expulsaria o demônio que o estava dominando. Disse que ele teria que abrir seu coração para receber essa luz divina. “Que luz será essa?” – Perguntava baixinho, com o rosto coberto pelas mãos.
A única luz que ele via era a do bar, que sempre o atraía para lá. Estava tão concentrado em seus pensamentos que tomou um susto quando Chico Pintado colocou um copo à sua frente e o encheu de cachaça. “Tome, é disso que você está precisando. Tome e se mande daqui. Eu perdi minha paciência”. Ao olhar para o copo, Tonhão viu o reflexo da luz e, imediatamente, lembrou-se do pastor e resolveu não tomar. Levantou a cabeça e viu o olhar fuzilante do Pintado e seu dedo apontando para a porta da rua. Seu corpo se recusava a sair dali. Ora olhava para o copo, ora olhava para o Pintado, numa indecisão insuportável. De repente, fechou os olhos e falou pela primeira vez, desde que tinha chegado ao bar.
• O que está acontecendo comigo? Desde quando eu tenho medo de um copo de cachaça?
Pegou o copo e bebeu toda a cachaça, de uma só vez. Em poucos segundos, a luz que tanto o atormentava começou a ficar mais distante. Pediu outro copo, mais outro e mais outro… Logo a luz se dissipara totalmente. Depois de vários copos de cachaça, levantou-se, pagou a conta e saiu do bar cambaleando. Foi ao meio da rua e gritou alto:
• Que luz, que nada! Eu sou o Tonhão, eu sou dono da minha vontade!
Nesse instante, ouviu-se um estrondo e tudo ficou às escuras. Ao levantar a cabeça, Tonhão viu a luz. A luz era forte, penetrante e vinha em sua direção. Instintivamente, lembrou-se do pastor, dos conselhos e de tudo o que havia acontecido com ele. Sem querer, arrependeu-se de tudo o que tinha feito, abriu os braços e entregou-se à luz. A luz chegou até ele de maneira tão forte que o atirou de volta ao bar. Ele passou pela janela e estatelou-se sobre a mesa onde estava. A mesa se quebrou e ele caiu de costas no chão. Nesse momento, a energia elétrica voltou e todos foram ver o que tinha acontecido.
Diante de todos, Tonhão abriu os olhos e disse:
• Eu vi a luz. – Disse e desmaiou.
No dia seguinte, Tonhão não se lembrava de nada, não reconhecia ninguém e nem sabia quem era. Comia e bebia o que lhe davam. Dormia e fazia suas necessidades quando o corpo pedia. De resto, só olhava, simplesmente olhava. A única coisa que dizia, de vez em quando, era: “Eu vi a luz”.
Durante três meses, Tonhão não sentiu falta de bebida. Seu organismo já estava desintoxicado. No entanto, por causa de uma febre, teve que ser internado novamente. Em um dado momento, quando estava sendo examinado, olhou para um leito ao fundo do quarto, onde estava um paciente todo quebrado, internado a mais de três meses, e disse: “Eu vi a luz”. Olhou para todos e repetiu: “Pessoal, eu vi a luz”. “Aleluia”, gritaram várias
pessoas e todos foram abraçar o Tonhão. O médico fez vária perguntas e ele respondeu a todas. O médico então concluiu: “Está curado”. Foi uma festa, todos se abraçaram.
A esposa do paciente todo quebrado, do leito ao fundo, disse ao marido:
• Você viu o milagre que aconteceu aqui? Você também precisa procurar essa luz e se curar.
• Essa luz eu não quero ver de jeito algum – disse o marido.
• Por que não, ele se curou vendo essa luz.
• Ele pensa que viu uma luz divina, mas a verdade é que ele viu o único farol aceso do meu caminhão, quando foi atropelado. Ninguém viu o atropelamento, estava tudo escuro e eu estava bêbado. Um quilômetro adiante eu capotei o caminhão e estou aqui, todo quebrado.
• Por que você não disse nada disso?
• Porque todos pensam que foi um milagre e a cura dele tirou um peso enorme da minha consciência. Foi bom para nós dois. Amanhã eu vou ter alta e nossas vidas vão continuar, bem diferentes. Eu, sim, nunca mais vou beber.
*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.
