Pedalar Mais, a Culpa é sua – por Manoel Lopes
O ar pesado de uma tarde qualquer na cidade, a sinfonia de buzinas impacientes, o ronco barulhento do seu carro continuam sendo apenas “detalhes”. Para muitos de nós, essa é a trilha sonora e o cenário cotidiano que marcam a busca por um lugar no trânsito. Em Cotia, como em tantas outras cidades brasileiras, a ideia de uma mobilidade fluida e saudável se torna um sonho distante. Mas e se houvesse um caminho diferente? Um caminho mais leve, silencioso e, sobretudo, humano?
Nesse cenário de desafios urbanos, a bicicleta emerge não apenas como um meio de transporte, mas como um manifesto silencioso. Um manifesto por um ar mais limpo, por ruas mais seguras, por uma cidade mais justa. A União dos Ciclistas de Cotia (UCC) sabe bem disso. Diariamente, seus membros e apoiadores pedalam contra a corrente, enfrentando não só o tráfego caótico, mas também a indiferença e a falta de infraestrutura. A ausência de ciclovias conectadas, a sinalização precária, a insegurança que espreita em cada esquina são coisas muito grandes pra esquecer.
A questão vai além do mero deslocamento. É uma via onde podemos enxergar a cidade e suas desigualdades. Quem pode pagar por um carro e passar horas no congestionamento, e quem depende do transporte público abarrotado ou de uma bicicleta que exige coragem para ser usada? A mobilidade por bicicleta não é um luxo; é um direito, um facilitador de acesso a oportunidades, saúde e lazer para todos. Em uma bicicleta, o motorista engravatado e o trabalhador da periferia compartilham a mesma paisagem, a mesma brisa, a mesma vulnerabilidade (e a mesma esperança). Promover o ciclismo é, portanto, promover a equidade social e a inclusão, mas eu duvido.
Os benefícios de pedalar são inegáveis e urgentes e a toda hora vão estar presentes. Para o indivíduo, melhora da saúde física e mental, redução do estresse, mais disposição. Para a cidade, menos congestionamento, menos poluição sonora e atmosférica, mais vitalidade nos bairros. Enquanto os veículos motorizados vomitam gases tóxicos e ocupam espaços preciosos, a bicicleta oferece uma solução elegante e eficiente. O corpo se move, a mente se liberta, a cidade respira.
Por que, então, ainda hesitamos em abraçar essa transformação? A resposta é complexa, mas passa, invariavelmente, pela falta de respaldo e investimento institucional. Embora a legislação já aponte o caminho através da Constituição de 1988, que garante o direito ao ambiente equilibrado, o Código de Trânsito Brasileiro de 1997 que reconhece a bicicleta como veículo e a Política Nacional de Mobilidade Urbana de 2012 que prioriza os modos não motorizados, a prática ainda patina. E a letra da lei continua envolvida no silêncio.
Que cidade queremos construir para as próximas gerações? Uma cidade onde o ir e vir é um fardo, ou um prazer? Onde a poluição nos sufoca, ou o ar fresco nos inspira? Onde as barreiras físicas reforçam as sociais, ou onde pontes e ciclovias conectam pessoas e possibilidades? A resposta a essas perguntas está em cada pedalada que incentivamos, em cada infraestrutura que planejamos e construímos, em cada voz que se une para defender a causa da bicicleta…, mas eu sei que esses “detalhes” vão sumir na longa estrada.
É tempo de reconhecer que “Pedalar Mais” não é apenas o título dessa coluna de jornal. É um convite à reflexão e à ação coletiva. É um apelo aos gestores públicos para que transformem planos em realidade, assegurando segurança, conectividade e respeito ao ciclista. É um desafio para cada cidadão repensar seus hábitos de deslocamento, ou coisa assim. Juntos, ciclistas, pedestres, motoristas, planejadores urbanos, políticos podemos desenhar uma Cotia, e um Brasil, onde a bicicleta seja parte integrante e valorizada da paisagem urbana. Uma cidade que respira, que se move com leveza, que é mais verde, mais saudável e mais justa para todos. Pedalar Mais é, em última instância, sonhar e construir uma cidade melhor.
E não adianta nem tentar me esquecer, eu vou viver!
Você vai ver!
*Manoel Lopes é autor de Na Trilha dos Deuses, livro que narra a jornada de um ciclista em busca da sustentabilidade, promovendo a conscientização ambiental e práticas mais responsáveis no cotidiano. Como escritor e colunista, se destaca em Cotia, influenciando positivamente a comunidade e promovendo uma cidade mais sustentável e conectada com questões ambientais. Escreve semanalmente no Jornal Cotia Agora.

