Conto de Antônio dos Santos Camargo: Estratégia do Amor
Sílvia e Sabrina, duas lindas jovens, filhas de um rico empresário na pequena cidade onde moravam, seguiam, confortavelmente, no banco de trás do carro de luxo da família. Elas conversavam preocupadas com as provas que fariam em poucos minutos, enquanto se dirigiam à escola municipal. Eram provas de avaliação anual de alunos, para promoção de série. Iam por uma estrada estreita e arborizada.
Faltavam, apenas, dois quilômetros para chegar à escola quando passaram por três rapazes que seguiam, a passos rápidos, na mesma direção.
Os rapazes fizeram gestos com as mãos pedindo carona. “Com certeza também estão indo fazer as provas”, pensou o motorista chateado.
O motorista, Sr. Joaquim, um senhor bastante educado, reduziu a velocidade, baixou o vidro do carro e disse aos rapazes que lamentava, mas não poderia dar- lhes carona porque seu patrão não permitia tal atitude. Retomou a velocidade e seguiu em frente.
Quinhentos metros à frente, depararam com uma árvore caída, atravessada na frente deles, impedindo a passagem do carro.
-Sr. Joaquim, -gritou uma das meninas – o que está acontecendo? Nós estamos atrasadas, faltam dez minutos para começar a prova.
-Lamento, “patroinha”, mas não dá para passar.
Vou ter que pedir ajuda – disse o Sr. Joaquim.
Nisso os três rapazes chegaram ao local. O Sr.
Joaquim logo se apressou em pedir ajuda a eles.
-Não podemos ajudar – disse Paulo, o melhor afeiçoado dos três.
-Por favor, nos ajudem – pediu Sabrina – se não passarmos, vamos perder a prova.
-Lamentamos, mas não podemos ajudar. Peçam ajuda pelo celular – disse Paulo.
Disse e seguiu em frente, arrastando seus colegas com sua liderança.
Terminada a prova, quando saía sorridente da sala de aula, Paulo foi chamado para comparecer à sala da diretoria da escola.
Ao chegar à diretoria, Paulo bateu na porta e entrou, de forma educada e disciplinada. A diretora, as jovens Silvia e Sabrina e os pais das meninas o aguardavam na sala.
-Paulo – disse a diretora – Sílvia e Sabrina não chegaram em tempo de fazerem suas provas. Disseram que você não ajudou o motorista do carro que as traziam a tirar uma árvore que havia caído na estrada. Estão colocando a culpa em você. Você confirma o que estão dizendo?
-Eu confirmo que havia uma árvore impedindo a passagem do carro e que nós não ajudamos o Sr.
Joaquim a tirá-la da estrada, mas não confirmo que fomos nós os culpados por elas terem perdido a prova.
-Como não é culpado, se você não ajudou? Logo você que sempre foi tão solidário…
-Sra. diretora, nós não podíamos tê-los ajudado. A árvore era muito pesada e nós demoraríamos, pelo menos, trinta minutos para tirá-la do caminho. Naquele momento, faltavam dez minutos para começar a prova e, se tivéssemos ajudado, todos nós chegaríamos atrasados e perderíamos a prova.
-Minha filha disse que você não quis ajudar porque meu motorista se negou a lhes dar carona – disse o Sr.
Moisés, pai das jovens. O que você fez foi se vingar delas por estar atrasado.
-Sr. Moisés, com todo o respeito, eu não estava atrasado, eu estava no meu horário. Eu moro em um sítio, a cinco quilômetros da escola e, antes de vir para a aula, tiro leite das vacas, colho os ovos das galinhas, limpo o curral e outras coisas mais. Só me restam trinta minutos para percorrer cinco quilômetros, a pé, e eu sempre chego no horário. Eu só pedi carona porque hoje é dia de prova e eu estava cansado. Por outro lado, se eu estivesse atrasado e tivesse perdido a prova, será que eu poderia estar aqui, agora, reclamando do senhor? O seu motorista não nos deu carona por sua ordem.
-Seria outra situação. Você não pode me culpar por ser pobre.
-Não, senhor Moisés, de forma alguma, a culpa é da natureza, assim como a natureza é culpada por o senhor ser rico. A natureza faz os homens, a natureza derruba árvores… contra minha vontade.
-Olhe aqui, rapaz, você está me insultando – disse o Sr. Moisés, um pouco alterado.
-Sra. diretora, – continuou Paulo – todos aqui conhecem minha reputação e minha dedicação aos estudos. Eu sou pobre e não posso perder um ano, sequer. Qualquer tempo perdido pode atrapalhar os meus planos para o futuro. Por isso eu não parei para ajudá- los. Mas tudo o que foi dito sobre o ocorrido, aconteceu. Por isso eu lhe peço, encarecidamente, que permita a realização das provas, em separado, para as meninas.
Elas não tiveram culpa do atraso.
-Está bem, – disse a diretora – Sílvia e Sabrina farão as provas em separado. Você é bastante querido nesta escola e está sendo honesto. Eu vou fazer isso porque você está pedindo.
-Minhas filhas não precisam que você interceda por elas. – disse o Sr. Moisés irritado.
-Desculpe, Sr. Moisés, mas precisam, sim. – disse calmamente Paulo. Com sua influência e pela sua posição social, acredito que o senhor arranjaria um jeito de suas filhas fazerem as provas, mas moralmente o senhor não tem esse poder. A culpa de suas filhas não terem chegado no horário é, exclusivamente, do senhor e de sua esposa.
-Como nossa? Isso é uma calúnia! Minhas filhas estavam no horário, o que houve foi um acidente.
-Os senhores se esqueceram de ensinar uma coisa bastante simples às suas filhas: a humildade. Bastaria que elas nos acompanhassem, a pé, e elas também fariam as provas no horário.
-Vamos colocar um ponto final nisso tudo. – disse a diretora para não prolongar a discussão. As meninas vão fazer as provas em separado, e caso encerrado.
-Eu agradeço, Sra. diretora, e espero que compreenda a minha posição.
-Eu compreendo, pode ficar tranquilo.
Quando Paulo virou-se para sair, Sr. Moisés o chamou.
-Espere, rapaz. Eu peço desculpa por esse mal- entendido e agradeço por sua colaboração, mas pare de olhar para minha filha desse jeito – disse em tom irritado.
-Com licença! – disse Paulo. Paulo saiu ruborizado.
Quinze anos depois, Sr. Moisés anunciava aos convidados a nomeação do Dr. Paulo para diretor da sua empresa.
Bastante eufórico, um pouco por efeito de bebida alcoólica, Sr. Moisés dizia que o Dr. Paulo, além de seu genro, era uma pessoa de sua inteira confiança. Falava da inteligência, da competência, da honestidade e da dedicação do genro.
Tomou um pouco mais de bebida e disse que, quinze anos atrás, seu genro fora o culpado por uma das maiores mudanças na vida dele. Disse que, há quinze anos, suas filhas estavam indo para a escola quando, de repente, havia uma árvore… Continuou contando o episódio da prova e que, para ele, foi um dos maiores ensinamentos que havia recebido.
Enquanto ele falava, Sílvia cochichou no ouvido do Paulo:
-Meu pai não esquece aquela nossa experiência. Ele diz que você o conquistou naquele dia, na diretoria… e eu digo o mesmo.
-É, – respondeu Paulo – a gente faz cada loucura por amor…
-Você acha que aquilo foi uma loucura?
-Claro! – disse Paulo, rindo – Se eu não tivesse derrubado aquela árvore, naquele dia, não sei se você estaria casada comigo hoje. Eu já era louco por você, mas aquela foi a forma que arrumei para me apresentar ao seu pai. Ainda bem que deu certo.
Disse e deu um beijo em sua esposa.
*Antônio dos Santos Camargo, também conhecido como Toninho ou Cobra, é natural de Cotia, filho de família tradicional da Cidade. Antônio é nascido e criado em Cotia. É Bacharel em Química e, além de outras atividades, trabalhou durante 36 anos no segmento químico. Aposentou-se há 9 anos e decidiu dedicar-se mais ativamente a uma atividade que sempre lhe deu prazer: Escrever.
